Como sonham os palhaços

Cirque du Soleil traz a São Paulo o espetáculo Corteo, que mostra os devaneios da imaginação

REGIS SALVARANI , O Estado de S.Paulo

31 de março de 2013 | 02h12

Imagine um espetáculo circense grandioso. Agora imagine esse espetáculo na tela de um pintor surrealista. Essa pode ser a impressão para quem vê Corteo pela primeira vez. Porque entre um número e outro, pode aparecer um palhaço andando de bicicleta no ar ou uma pequena palhaça flutuando erguida apenas por grandes balões de gás.

"Corteo" significa "cortejo" em italiano, e o espetáculo do Cirque du Soleil, que estreou ontem em São Paulo, no Parque Villa-Lobos, tem como tema o sonho de um palhaço com seu próprio funeral. Nesse cortejo "fúnebre", que pode soar melancólico, mas nunca triste, desfilam diversos números circenses, todos realizados com o tradicional grau de complexidade e criatividade do Cirque du Soleil.

Mas como tudo se passa na cabeça de um palhaço, eles (palhaços) são os grandes protagonistas nesse espetáculo e costuram todas as ações. Palhaços "gigantes", "minúsculos", "sedutores", "mal humorados" e até mesmo os anjos do palhaço supostamente morto.

Para que tudo pareça um sonho, um dos grandes artifícios usados é a "Paciência", uma estrutura de aço, em forma de arco, que vai de um lado a outro da tenda, e onde está disposta uma série de trilhos. Por esses trilhos, e com a ajuda de alguns elevadores, são movimentados lustres, camas, personagens, elementos de cena. Afinal, sonhos não respeitam a lei da gravidade.

A trilha sonora, que por si só já é um espetáculo, também é construída com sonoridades das mais diversas culturas, e por vezes soa como uma grande "Jam session global". Os músicos executam os temas ao vivo e em cena, e por vezes, os cantores e instrumentistas até interagem com os demais personagens, podendo inclusive "roubar a cena".

A trama, supostamente, se passa numa época por volta de 1800 na Itália. Por isso, teoricamente o idioma é o italiano. Aliás, esse é um dos espetáculos do Cirque du Soleil com maior número de falas. Mas, como pode acontecer num sonho, diversas línguas se misturam em cena, inclusive o português, e nem por isso há dificuldade de compreensão em qualquer parte do mundo onde o show é apresentado.

Segundo os idealizadores, o "circo" é uma língua universal. Company manager, Patrick Flynn faz questão de reverenciar os circos tradicionais e familiares, dos quais saíram vários artistas que integram hoje o Cirque du Soleil.

A trupe do espetáculo é formada por profissionais de 25 nacionalidades. Russos, ucranianos, canadenses, italianos, americanos, japoneses, chineses. Uma grande torre de babel, onde todos se entendem perfeitamente, à custa de muita dedicação e ensaio. Na turnê nacional, três brasileiros integram o elenco. Um deles é a ginasta Camila Comim (veja entrevista), que deixou a ginástica há sete anos para se dedicar ao Cirque du Soleil.

Como conta o diretor artístico do espetáculo, Bruce Mather, "trabalhar com gente tão diferente, com diferentes idiomas e culturas, é maravilhoso. Porque você aprende o que é tolerância. E porque você aprende a ser muito cuidadoso com o que diz, para não ser mal interpretado. E acho que se o mundo todo pudesse aprender o que é conviver com culturas diferentes, as pessoas iriam entender que não são tão diferentes assim."

Tudo que se vê no placo de Corteo é resultado em grande parte de um ambiente que se cria nos bastidores. Onde quer que o espetáculo esteja em cartaz, o ambiente é o mesmo, com salas de treino, fisioterapia, restaurante. O Cirque mantém até uma escola para filhos de funcionários, que viaja junto com o espetáculo. Isso faz o elenco se sentir muito a vontade. Além disso, as rotinas são muito estruturadas e os treinos constantes. Nada pode dar errado. Até porque o perigo dos números é uma das coisas que mais impressiona nas performances. "Nós vendemos risco", conclui o diretor artístico do espetáculo.

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