Alexandre de Paulo/ADP Photo
Danielle Hernandes e a filha Sofia, de 7 anos de idade Alexandre de Paulo/ADP Photo

Como será o retorno às aulas para crianças com deficiência após fim da quarentena?

Pais estão preocupados em levar filhos para o colégio em tempos de pandemia do novo coronavírus

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2020 | 10h00

Quando decidiu engravidar, Danielle Hernandes estava com 40 anos de idade. “Eu conheci o Anderson, meu marido, eu já tinha 40 anos. E ele é 13 anos mais novo que eu. Eu achava que nem poderia ser mãe. Existe um exame de sangue que a mulher faz que atesta a possibilidade de ter um filho. Fiz esse exame e deu 9% de chance de ser mãe”, relembra. Durante o acompanhamento pré-natal da pequena Sofia, Danielle descobriu que a filha teria Síndrome de Down. “Quando tive certeza do diagnóstico, meu mundo caiu. Hoje agradeço muito à Deus e não vejo minha vida sem a Sofia, mas na hora ficamos sem chão. Me lembro que chorei muito e que meu pai me disse que não tinha nada de errado, que a Sofia era nossa e que estava tudo certo. Esse meu desespero durou um final de semana, porque depois fomos atrás do que era Síndrome de Down, a médica que me acompanhou desde o início se transformou em uma amiga e me explicou tudo de bom e de ruim que poderia acontecer com a Sofia desde a gestação até quando ela nascesse”, disse.

E com a mesma dedicação do início é que Danielle acompanha os estudos da filha agora, aos sete anos de idade, em tempos de pandemia do novo coronavírus. Assim como ela, a adaptação das rotinas escolares na quarentena não tem sido uma tarefa fácil para alunos e pais e o desafio para aqueles que têm alguma deficiência física ou intelectual é dobrado. 

“Hoje está tudo uma loucura, estamos com aulas online e eu fico ajudando ela o tempo todo. É difícil porque ela tem uma deficiência intelectual, então ela não está no mesmo nível que outras crianças. Tenho que ficar ao lado dela o tempo todo até que ela se concentre. Ela assiste cerca de 50 minutos de aula por dia, em uma sala com 30 crianças, não recebemos nenhum material adaptado, então, tem dias que ela tem 16 páginas para fazer e obviamente que não conseguimos”, conta.

Danielle afirma que a filha está começando a aprender a escrever agora: “Sabemos que, por lei, ela não pode ser reprovada, mas quero que faça tudo certinho e tenha uma vida o mais normal possível como a de qualquer outra criança”.

 

Alunos com outras limitações como surdez, cegueira, paralisia e transtornos como o do Espectro Autista também enfrentam desafios constantes no processo de aprendizagem durante a pandemia de covid-19

A doutora e mestre em Distúrbios do Desenvolvimento Carolina Quedas avalia que as mudanças de rotina de maneira geral influenciam muito a vida de crianças com TEA: “É um processo bem complicado e para se adaptarem ao ensino à distância não é diferente, pois muitos que possuem o transtorno precisam de um olhar especializado. Eles têm necessidades de adaptações de materiais, estratégias de ensino diferenciada. Muitos não conseguem ficar em frente ao computador e prestar atenção nas aulas online. Em muitos casos, as atividades que são enviadas para as residências também não estão adequadas para essas crianças e não são elaboradas de acordo com as especificidades de cada indivíduo. Esqueceram que cada criança e adolescente é único e necessitam de um olhar específico, voltado para o seu desenvolvimento”.

O governo de São Paulo anunciou um plano para retorno das aulas em setembro. O protocolo vale para as redes pública e privada e todos os níveis de ensino, do infantil ao superior. Apesar disso, alguns critérios devem ser cumpridos até lá para que a volta seja confirmada durante a pandemia. Até agora, as autoridades não foram específicas sobre o retorno às aulas para crianças com necessidades especiais.

“Precisamos ter segurança para essas crianças e adolescentes, montar um plano seguro de retomada específico para essas crianças com estratégias de ensino sobre os cuidados que devem tomar, orientando as famílias dentro do ambiente escolar com relação a importância do distanciamento social e higienização, uso de máscaras. Em muitos casos, certamente a situação será mais complicada, algumas crianças com TEA têm aversão ao uso da máscara, o que pode ser um grande problema. Acredito que essa retomada deva ser feita somente em caso de extrema necessidade, se não houver nenhuma outra maneira para a família”, ressalta Carolina Quedas.

Danielle Hernandes ainda não sabe como fará para que Sofia retome as aulas presencialmente, caso tenha que voltar a trabalhar. “Sobre levar a Sofia de volta para a escola nessa retomada, é uma pergunta que não sei como responder. Se eu precisar voltar a trabalhar, como acho que terei que voltar, minha mãe é a única pessoa que poderá ficar com ela. Cada dia é um novo dia, a gente pensa muito nisso, mas não sei como vou fazer. Sinceramente minha intenção é ficar com ela o máximo que puder dentro de casa. É uma questão muito difícil, pois eu não posso dizer não ao meu trabalho em meio a essa crise, mas tenho que pensar também na saúde da Sofia”, desabafa.

O advogado Marcelo Válio, especialista na área do Direito dos vulneráveis, esclarece que a  omissão do governo poderá configurar infração a Lei Brasileira de Inclusão – 13.146/15, bem como ao Tratado de Salamanca e a Convenção Internacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Para ele, é indispensável que as famílias observem as condições mínimas de proteção à saúde de seus filhos e se a inclusão esteja eficaz.

“Importante que as famílias exijam a criação de protocolos específicos, levando-se as cinco fases do Plano São Paulo para o retorno das crianças com deficiência. Nestes protocolos, além de estar prevista a proteção para não contaminação, também devem os meios adequados e inclusivos que afastem as barreiras de cada aluno e suas dificuldades. Na elaboração dos protocolos, os autores devem seguir como premissa que a escola que deve se adequar ao aluno e não o aluno deve se adequar a escola”, afirma.

Caso não haja adaptação, a criação de protocolos e a inclusão escolar efetiva pelas entidades de ensino, os pais podem entrar com um boletim de ocorrência junto às Delegacias de Crimes contra as Pessoas com Deficiência, fazer uma denúncia junto ao Ministério Público, acionar a Defensoria Pública ou medida judicial individual através de advogado constituído.

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Pandemia deve fazer inadimplência no ensino superior privado atingir maior índice da história

Previsão  do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp) é de que, até o final de 2020, taxa chegue a 11.3%

João Ker, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2020 | 14h41

Instituições privadas de ensino superior devem enfrentar neste ano a maior taxa de inadimplência dos alunos desde 2006, quando a Semesp, entidade que representa mantenedoras de ensino superior no Brasil começou a monitorar o índice. A previsão é que 2020 termine com, pelo menos, 11.3% do total de estudantes devendo ao menos uma parcela de mensalidade. Até então, o maior número registrado foi no ano passado, com 9.5%. 

Apenas em maio, a taxa de inadimplentes no ensino superior deste ano aumentou indo de 15,8% para 23,9%, quando comparada ao mesmo mês de 2019 nos módulos presenciais e a distância (EAD). Já em relação a abril deste ano, houve um recuo de 9,1% entre alunos que não pagaram ou não negociaram as mensalidades ao longo de, pelo menos, um mês.

“Levantamos duas questões que fizeram o recuo acontecer. Primeiro, muitos alunos negociaram sua inadimplência, com pagamento parcelado ou adiado”, explica Rodrigo Capelato, diretor-executivo do Semesp. “Segundo, quando deu-se a pandemia, houve um choque inicial no primeiro momento, quando as famílias e os alunos suspenderam todos os pagamentos, diante da incerteza sobre as aulas”, completa. 

De acordo com ele, à medida que o tempo passou e as pessoas conseguiram ter dimensão real da pandemia, elas também viram que, dentro do possível, as instituições mantiveram as aulas e, com isso, os pagamentos foram retomados.

Ele aponta que instituições mais atingidas no período foram as de pequeno e médio porte, com até 7 mil alunos matriculados e responsáveis por 71% do ensino superior privado no País. Ao todo, a inadimplência entre alunos de cursos presenciais e do EAD desse grupo somou 24,2% em maio, contra 23,4% das universidades de grande porte.

“Sem dúvida, instituições de grande porte têm uma capacidade maior de renegociação de dívidas, com mais ferramentas financeiras para poderem trabalhar com os alunos”, aponta Capelato.

Ele observa que os índices registrados em São Paulo são ainda maiores que a média nacional, principalmente na região metropolitana, responsável por mais de metade das instituições privadas de ensino superior.  Ao todo, o estado fechou o mês de maio com a taxa de inadimplência em 23%, o que reflete um crescimento de 57,3% frente ao mesmo período do ano passado. Apenas na região metropolitana, esse número cresceu 64,5% na mesma comparação. 

Evasão escolar. Outro efeito colateral da pandemia do novo coronavírus é a evasão escolar no ensino superior privado. O levantamento do Semesp mostra que o índice para alunos do EAD se manteve praticamente estável, com queda de 2,4% no trancamento de matrículas em maio comparado ao mesmo período de 2019. Já entre os alunos de cursos presenciais, esse número chegou a aumentar em 14,3%, um total de aproximadamente 265 mil alunos apenas naquele mês. 

Esse crescimento também foi observado nas comparações entre maio e abril deste ano, mas Capelato afirma que, nesse aspecto, a tendência não é apenas um comportamento dos tempos de pandemia. “Já é preocupante, mas não é um indicador muito explosivo. Ela se concentra nos calouros, alunos do primeiro ano que ingressaram em março e, 15 dias depois, já tiveram as aulas suspensas”, explica.

A fragilidade do elo entre os calouros e a faculdade alinhado ao momento da pandemia e ao histórico do próprio mês de março, cuja taxa é comumente maior que a de abril, apontam para uma evasão escolar “dentro do esperado”. Entretanto, esse número pode crescer em julho. “Percebemos que alunos do 3º ou 4º ano não querem perder o investimento que já fizeram no curso. Mas há uma preocupação muito grande na virada do semestre. É capaz de termos um problema de rematrícula, já que os contratos são semestrais, e receio que essa evasão possa crescer”, aponta Capelato.

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