Como ser profundo e singelo, sem perder o sentido de espetáculo

O início de Além da Vida mostra que Clint Eastwood não perdeu o sentido do espetáculo, próprio de alguém formado em filmes de ação. O tsunami que surpreende o casal francês em férias na Tailândia é das catástrofes naturais mais bem filmadas e realistas da história recente do cinema. Mas o que se vê a seguir mostra o homem maduro, sereno em seus 80 anos e consciente de que um início espetacular não se sustenta por si só. Funciona apenas se colocado de maneira funcional no conjunto da história que se deseja narrar. Ou da reflexão que se deseja fazer. Eis aí: o tsunami é o contato repentino com a morte - ou com a sua bem palpável possibilidade. Marie Lelay (Cécile de France) não é alguém doente ou perto do fim. Ao contrário. É jovem, exala saúde e energia pelos poros. Jornalista de sucesso, está apenas fazendo uma pausa em seu trabalho com o namorado, produtor do seu programa na TV. Marie julga-se no topo do mundo. A força natural da onda gigante a coloca em seu lugar. Ela não é nada.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2011 | 00h00

Em outra cidade - Londres - corre uma história paralela. Dois irmãos, Marcus (Frankie McLaren) e Jason (George McLaren) se unem para encobrir a vida desregrada da mãe, temerosos de que o serviço social do governo os coloque em um abrigo para menores. A vida de todos já é bastante complicada. Mas a de um deles ficará ainda mais difícil, e marcada pela tragédia.

Em outro país - EUA - George Lonegan (Matt Damon) é o sensitivo que já ganhou dinheiro intermediando a comunicação entre mortos e vivos e resolveu deixar tudo de lado. Afirma que o "dom" é, na verdade, uma desgraça, e deseja apenas viver como ser humano normal. Alguém que ganha o pão no cais do porto em Nova York e toma aulas de culinária italiana à noite. Uma maneira como outra qualquer de preencher a solidão e, quem sabe, fazer novas amizades.

Essas histórias se desenvolvem de forma intercalada, e com uma fluência de dar gosto. É impressionante como Clint foi depurando sua arte ao longo do tempo, de tal modo que faz parecer muito natural apresentar seus personagens, e seus conflitos, de maneira muito simples. Como se fosse fácil filmar de maneira tão despojada quando, na verdade, se trata da maior das dificuldades do cinema: livrar-se dos penduricalhos e ater-se ao essencial. E o essencial, aqui, é fazer com que o filme fale menos de espiritismo do que da afirmação da vida contra o pano de fundo da morte.

Desse modo, Matt Damon não é um Chico Xavier norte-americano e nem Além da Vida, um Nosso Lar do Primeiro Mundo. Clint não faz apologia de qualquer doutrina religiosa nem parece empenhado em provar o que quer que seja. Depois de lidar com o tema da morte de diversas maneiras em sua obra recente (Menina de Ouro, Gran Torino), Clint lida com personagens empenhados em descobrir o que existe "do outro lado do rio". Mas que nem por isso se tornam escravos de uma crença ou paralisados por uma especulação. Pelo contrário, quanto mais buscam respostas no além, mais parecem perceber que é por aqui mesmo que precisam se arrumar. E "arrumar-se" quer dizer algo também muito simples: devem evitar a solidão, relacionar-se com os outros e tentar a felicidade terrena, a única de fato disponível no mercado da fragilidade humana.

Não é preciso crer ou descrer em espíritos para reconhecer que Clint fez um grande filme com elementos tão singelos.

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