Como se diz best-seller em chinês

Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que entre os livros mais vendidos no Brasil o lixo não prevalecia de forma tão acintosa,nem os habituais campeões de venda (Harold Robbins, Arthur Hailey, Stephen King) entupiam as listas de best-sellers com dois ou três lançamentos simultâneos,como acontece atualmente, com o comércio de livros oligopolizado por E.L. James, Dan Browne Stephenie Meyer. Se não lemos (ou líamos) mais, já lemos bem melhor.

Sérgio Augusto,

13 Fevereiro 2013 | 19h52

Em 1966, por exemplo, a tradução que Antonio Houaiss fez de Ulisses, de James Joyce, chegou ao topo dos mais vendidos, onde lhe fizeram companhia três importantes autores nacionais - Carlos Heitor Cony (com Balé Branco),Mário Palmério (Chapadão do Bugre), Erico Verissimo (O Senhor Embaixador)- e três estrangeiros de inquestionável qualidade: Hemingway (com uma reedição de O Sol Também se Levanta), James Baldwin (Numa Terra Estranha) e John Le Carré (O Espião Que Veio do Frio).

Nas duas décadas seguintes, a peteca não caiu. O até então imbatível Jorge Amado passou a ser ultrapassado não por gringos de baixo teor literário,como fatalmente ocorreria hoje em dia, mas pelo esplêndido Rubem Fonseca. Numa relação dos mais vendidos no início de 1986, que há meses pincei para uma pesquisa, deparei com um romance de Rubem Fonseca (Bufo & Spallanzani) e dois de Milan Kundera (Risíveis Amores e A Insustentável Leveza do Ser) dividindo a mesma lista com Marguerite Duras, Luis Fernando Verissimo, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa (uma reedição de Grande Sertão: Veredas) e Dalton Trevisan (A Polaquinha). Vivíamos numa utopia literária e não sabíamos.

Também foi em 1986 que a estreante Companhia das Letras embasbacou o mercado editorial ao vender 100 mil exemplares de Rumo à Estação Finlândia, de Edmund Wilson, que por dez meses reinou sobranceiro entre os livros de não ficção mais comprados do ano. Em suas quatro décadas de existência, To the Finland Station nem um quinto disso vendera nos países de língua inglesa. No pódio outrora ocupado pela magnífica aula de história moderna de Wilson agora temos uma aula de emagrecimento do dr. PierreDukan, seguida de outras chorumelas dietéticas e comportamentais.

Não é a única evidência da degradação cultural do Brasil nos últimos anos. Decadência que, aliás, não nos é exclusiva (o mundo inteiro rendeu-se a todos os tons de cinza de E.L. James) nem deve ser tributada à "nova classe média" em ascensão, pois livro nunca fez parte da cesta básica espiritual dos brasileiros, ao contrário da música e da TV. O fenômeno é mais complexo e tem mais a ver com a decadência do ensino e a ascensão das novas mídias do que com uma eventual contaminação do gosto médio pela vulgaridade populista há tempos hegemônica entre nós.

Ainda me pergunto quantos, em 1986, leram a tradução do Ulisses e quantos só a compraram impelidos pelo efeito manada ou para fazer farol? Não existe pesquisa a respeito, apenas suposições. Tampouco se sabe quantos na China compraram a tradução de Ulisses para o mandarim (mais de 85 mil exemplares vendido sem 18 anos) com o propósito de gramá-lo por inteiro e quantos só o fizeram para impressionar Amigos e vizinhos, aconselhados ou não pelos milhares de decoradores que lá surgiram para atender aos caprichos de novo-rico da plutocracia local.

Outra suspeita é de que os chineses desenvolveram um penchant por livros de espinhosa leitura como uma reação catártica ao sectarismo da Revolução Cultural e por acreditá-los inatingíveis pela censura ora em vigor. Joyce, que para os templários maoistas não passava de um burguês decadente, de um formalista antirrevolucionário, teria se tornado uma referência libertadora, um salvo-conduto para a modernidade, um emblema de algo ainda escasso na China: a liberdade de criar.

Ok, mas não precisavam exagerar, transformando também em best-seller o impenetrável Finnegans Wake. Acredite: uma tradução do canto do cisne de Joyce para o mandarim foi lançada na China no último Natal e vendeu em três semanas 8 mil exemplares; cifra impressionante mesmo para os superlativos padrões chineses. Finnegans Wake é um dos romances mais ininteligíveis de todos os tempos. O próprio Joyce dizia que os críticos levariam 300 anos para decifrá-lo. Não é tarefa para nenhum de nós.

Editada aos pedaços em 1924, com o título provisório de Work in Progress(Obra em andamento), e lançada, já com seu título definitivo, em 1939, o mínimo que provocou nos meios literários foi perplexidade. Duvidaram que fosse um romance e, caso fosse, não souberam precisar a que gênero pertencia e em que língua fora escrito (a base é um inglês desnaturalizado pela desaforada inventiva linguística do autor, que ao longo do texto incorpora orações e parágrafos inteiros em 70 idiomas, criando neologismos e jogos de palavras intraduzíveis). Nem sequer tente imaginá-lo em mandarim.

Originalmente com 20 mil páginas de notas manuscritas repartidas em 60 cadernos, Joyce levou 17 anos burilando a cria, e entre cópias e revisões chegou a 20 versões diferentes."Perda de tempo",lastimaram vários admiradores do escritor. A versão editada pela Random House tinha mais erros tipográficos que a primeira edição de Ulisses, impressa por franceses numa gráfica de Dijon. Dois filólogos joycianos levaram três décadas "arrumando" o texto e há três anos o entregaram a uma editora swiftianamente chamada Houyhnhm.

As duas traduções feitas no Brasil, pelos irmãos Campos e Donaldo Schüler, têm o mesmo título, Finnicius Revem, e divergem desde a primeira palavra. Campos traduziu "riverun" por "ricorrente" e Schüler, por "rolarrioanna". Em mandarim, não sei como ficou.

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