Como se a música não desse mais conta do recado

Na próxima turnê, Bono vai aparecer voando. Surgirá dos céus em uma grande nave, pousará no palco com roupas de astronauta e fará um longo discurso sobre injustiças sociais em outras galáxias antes de se lembrar de que foi ali para cantar algo. Melhor: se tudo continuar como anda, o estádio todo será uma grande nave. E todos ali, incluindo os 90 mil seres humanos pagantes, irão responder aos estímulos de Bono com a mesma emoção dos androides.

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2011 | 00h00

O espetáculo do U2 não é mais musical, é cênico. Sim, o rock and roll é cênico desde antes de sua própria existência, quando Howlin"Wolf uivava e se jogava no palco em suas apresentações de blues nos anos 50 ou Chuck Berry pulava como um pato manco nos 60. Os Rolling Stones inflam bonecos gigantes. O AC/DC sai de uma locomotiva. Paul McCartney tem a seu dispor os maiores telões do mundo. Mas até aqui havia equilíbrio com uma conta que fechava mais ou menos assim: 60% de som, 40% de imagem. Ao trazer seu alien de 60 metros de altura para um estádio, o U2 não só garante públicos maiores em shows com visão de 360° e entra para a história com a turnê mais rentável de todos os tempos como inverte a fórmula: o Morumbi viu, nos três shows que a banda fez por aqui, 40% de música e 60% de qualquer outra coisa impactante, espetacular, maravilhosa e tudo mais que nada tem a ver com música.

É como se a canção não desse mais conta do recado. Como se Stuck in a Moment ou One não tocassem mais as pessoas por si só. Pergunte a quem foi ao show: "Qual a melhor parte da noite para você?". Muitos não vão falar o nome de uma música, mas um momento, uma cena de impacto. "Ah, para mim foi quando aquela gaiola gigante começou a descer sobre o músicos e eles ficaram tocando lá dentro ao mesmo tempo em que a estrutura da gaiola projetava umas imagens da banda. É muito louco." Ok, mas o que eles tocavam mesmo?

E aí o fã que se sente mais fã fica indignado porque não aceita quando vê que a maioria da plateia não pula como ele gostaria que pulasse. Sob o efeito da overdose de surpresas hi-tech, muita gente parece apática, sem ação, sem entender porque suas pernas não querem sair do lugar. Afinal, o convite ali não é para dançar, mas para ver o massacre da máquina U2 em ação. E quem vê pode até se emocionar, mas não dança. O problema é que o tempo passa e o exagero cansa. Estímulos visuais, um após o outro, concentrados em duas longas horas, terminam por deixar as pessoas cegas. A certa altura, a aranha de Bono poderia rebolar até o chão que o máximo que receberia seria gritinhos de "uhu".

Quero apostar que em cinco ou seis anos o U2 fará um grande documentário. Sentadinhos em um estúdio, serão entrevistados e responderão sobre sua fase megalomaníaca dos anos 2010. Bono, abraçado ao violão, dirá que o grupo perdeu a noção da realidade e que, por isso, decidiram voltar a fazer shows de música.

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