Como são tratados os dentes em japonês?

Percebi que a dor que vinha sentindo, havia alguns dias, poderia gerar complicações quando pesquei um pedaço de dente da boca durante o café da manhã, no 15.º andar do meu hotel na cidade de Nagoya. Estou aqui para a COP-10. É a reunião da ONU que busca soluções para a perda de biodiversidade ao redor do planeta. Vou ficar mais uma semana.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2010 | 00h00

Piorava a dor quando tomava café, quente. Melhorava ao tomar água, fria. Minha primeira reação foi disfarçar. Pedi licença e fui para o quarto. Mal consegui aguardar a chegada do elevador.

Herdei os dentes do meu pai, que os recebeu da sua mãe. Dão trabalho. Visito com frequência meu dentista, Andrés, em São Paulo, que já considero amigo meu. Se estivesse em São Paulo, ligaria para ele. Mas daqui do outro lado do mundo não iria adiantar muito, calculei. Era provável que estivesse dormindo, ainda por cima, pensei.

Por vezes, a dor de dente melhora com pasta. Entrei logo no banheiro, depois de abrir a porta do quarto com um daqueles cartões. Enchi a escova de pasta e enfiei-a na boca. Passei lá no fundo, de onde vinha a dor, com delicadeza, mas rápido. Minha boca se encheu com um gosto péssimo, parecido com cal ou cocô de pombo urbano. Olhei para o tubo. Li: "Bozzano, nova embalagem, creme de barbear, aloe vera, proteção da pele." Cuspi. Enchi a boca de água. Era horrível a sensação.

Nesse momento, fiquei com dó de mim mesmo. Ninguém merece. Encontrei a pasta de dente e o mundo voltou a fazer um pouco de sentido. Não é a primeira vez que escovo os dentes com creme de barbear. Não sei por que o fazem com gosto tão ruim. Se houvesse um de morango, comprava. Juro.

Tentei me automedicar com Coca-Cola, provocando olhares de resignação da minha mulher Luli, que chegara do café da manhã. Sou americano de origem. Acredito nos poderes medicinais da Coca-Cola. Disse a ela que iria passar. Minha mulher ponderou que nunca havia visto isso acontecer com uma dor daquela intensidade sem intervenção médica. Pedi que ela não cancelasse seu passeio a Kioto, uma cidade histórica a duas horas daqui. Eu me virava, garanti.

Três Cocas e meia mais tarde, liguei para a produtora Pamela Hata. Ela é uma versão mais bonita de mr. Wolf, o personagem feito por Harvey Keitel no filme clássico de Quentin Tarantino, Pulp Fiction. Resolve tudo.

Meia hora depois estava sentada na sala de espera de uma modernosa clínica odontológica na torre ao lado do meu hotel no centro de Nagoya. A conta, disse Pamela, não ficaria em mais de mil dólares. Foi o que lhe disseram. Na sala, passava um programa que lembrava Silvio Santos em japonês numa TV cercada por pequenos objetos em diferentes cores de plástico. Corriam para lá e para cá moças graciosas em uniformes de tons pastel.

Ao ser atendido, foi a Pamela quem conversou com o dentista. Jovem e esguio, a mim me parecia ter uns 22 anos. Olhou meus dentes com um espelho, sentou e passou a conversar em japonês. Pamela falava mais. O dentista, cujo nome não peguei, infelizmente, abanava a cabeça em intervalos regulares e fazia algumas perguntas para ela. Depois de um tempo, comecei a ficar preocupado. O que diziam tanto? Quando parou com a cabeça, fechou uma mão na outra e me deu um olhar de comiseração, como só os japoneses são capazes.

Por um instante senti pânico. Será que a situação é grave? Teria de fazer acupuntura na boca ou algo pior? Como se tratam os dentes no Japão? Nunca pensara nisso. Mas logo depois ele puxou uma tela futurista de computador, montada ao nível dos meus olhos, e começou a desenhar em cores variadas. Havia setas e círculos e triângulos.

Conclusão: teria de fazer uma cirurgia de canal. Menos mal. Foi ali que deitou a cadeira e colocou na minha cara uma máscara de pano com apenas um buraco para a boca. Não conseguia enxergar nada. A ideia era essa, desconfio. Pediu em inglês para eu morder: "bite". Fechei a boca. "Stop bite", disse e abri a boca, ali debaixo da máscara. "Bite", repetiu. Fechei a boca. "Stop bite", abri a boca. A essa altura, a assistente dele interveio no diálogo, num tom acima do usual para as moças japonesas: "Stop bite", disse, com urgência na voz. Abri a boca. "Stop bite", repetiu. Foi aí que o dentista aproveitou e me deu uma injeção de anestesia.

Não sei o que colocam na anestesia odontológica no Japão, mas parei de sentir dor até mesmo na alma. Tentei explicar ao jovem dentista que já estava curado, mas ele trabalhava na minha boca. No fim, pediu a Pamela que me falasse que havia feito a intervenção com o maior carinho possível. Esperava que não tivesse sentido muita dor. Para dizer a verdade, não senti nada. Apenas uma imensa gratidão.

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