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Como os modernos reciclam o cânone

A estratégia de retrabalhar clássicos da literatura ou fazer um aggiornamento temático de grandes escritores não é exatamente nova, mas quando obras e autores consagrados são relidos e reescritos por nomes como o japonês Haruki Murakami, eterno candidato ao Nobel, ou pelo afegão Atiq Rahimi - indicado para disputar o Oscar de melhor filme estrangeiro por Syngué Sabour (Pedra-de-Paciência), escrito e dirigido por ele - é possível dizer que há algo na ficção dos mestres que extrapola sua dimensão literária. Murakami, na trilogia 1Q84 (leia crítica na página ao lado), usa 1984 - o distópico livro do inglês George Orwell sobre uma sociedade totalitária do futuro - como modelo de seu mundo alternativo, em tudo o inverso da realidade que conhecemos. Rahimi, em Maldito Seja Dostoiévski, parte de Crime e Castigo para ambientar a história do personagem Raskólnikov no Afeganistão dos anos 1990 (leia abaixo entrevista com o autor). Ainda um terceiro livro lançado há pouco comprova a atual tendência revisionista no mundo literário: O Comedido Fidalgo, do escritor espanhol Juan Eslava Galán. Ele volta ao século 16 para cruzar a biografia de Cervantes com a de Alonso de Quesada, possível modelo de Dom Quixote, que teria percorrido os mesmos caminhos de seu criador e aqui vira personagem de Galán.

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2012 | 02h06

Murakami, além de 1Q84, cujo primeiro volume já está à venda, "recicla" outros clássicos numa peça em cartaz no Rio (O Desaparecimento do Elefante) baseada em cinco contos de seu livro The Elephant Vanishes (ainda não traduzido no Brasil) e dirigida pela dupla Monique Gardenberg e Michele Matalon. Em Sono, um dos textos da peça, o clássico escolhido para a releitura é Tolstói. Murakami faz uma frustrada dona de casa ler Anna Karenina durante 17 noites até que a infeliz insone e a personagem do russo se transformem numa massa amalgamada, incompreendida pela família. Suas digressões, em 1Q84, contemplam mais clássicos, de Dostoiévski (Os Irmãos Karamazov, que ele leu quatro vezes) a Chekhov (A Ilha Sakhalin: Notas de Viagem). Chekhov pode ser a chave para explicar o submundo do livro de Murakami: o que teria feito o dramaturgo russo, de saúde frágil, enfrentar, em 1890, uma viagem interminável até a remota colônia penal de Sakhalin, onde acaba a Ásia? A literatura é uma resposta, mas, em primeiro lugar, a curiosidade de saber como viviam os degredados no lugar mais isolado do planeta, expulsos da sociedade para a margem extrema do mundo.

Não por outra razão, o romance de Murakami esboça em sua introdução a mesma odisseia movida pela curiosidade a respeito dos antípodas. A literatura faz isso: aproxima - ou deveria aproximar - diferentes culturas e modos de vida, mas conduz o leitor à reflexão pelos caminhos mais absurdos. É assim que 1Q84 começa com uma garota impaciente, Aomame, presa num congestionamento de uma via expressa elevada japonesa. Ela desce de um táxi para descobrir um submundo que teria sido melhor ignorar. Bem que o taxista a adverte: a escada de emergência pode levar a um lugar imprevisível, onde "as coisas não são o que aparentam ser". Faz lembrar Alice no País da Maravilhas, mas o pesadelo de Aomame será pior que o da garota curiosa do livro de Lewis Carroll. Ao descer a escada de emergência, Aomame entra em outra dimensão, um mundo povoado por criaturas minúsculas, monstros asquerosos e líderes de seitas religiosas que fazem o distópico 1984 parecer menos assustador do que o futuro apresentado pelo japonês - ou o futuro do pretérito, uma vez que seu livro se passa no mesmo ano da obra de Orwell, que, aliás, o franco Murakami considera "tediosa".

Esse novo tipo de abordagem é o que diferencia as releituras atuais das antigas. Há reverência, mas não submissão aos modelos. Atiq Rahimi não usa o Raskólnikov de Crime e Castigo sem questionar o senso de justiça dos russos - e de Dostoiévski, em particular. Mostra que a justiça praticada na Rússia nada significa no Afeganistão dos senhores da guerra e das forças pró-soviéticas que apoiaram a invasão do país. Rassul, o seu Raskólnikov, não por acaso um ex-estudante de Direito, mata uma velha usurária que se recusa a receber seu relógio em troca de 2 mil afghanis e parece movido por uma força misteriosa a se denunciar, a exemplo do protagonista de Crime e Castigo. Vaga pela cidade de Cabul após titubear e fincar acidentalmente o machado no crânio de sua locadora, sendo justificado por um mujahid que a considerava uma "desonrada". Em busca de julgamento, ele encontra quem o absolva num Afeganistão dominado pelo despotismo e o fundamentalismo religioso, onde matar é um ato "justificável" para se livrar dos "indesejáveis".

O caminho da redenção, tanto em Murakami como em Atiq Rahimi, passa pela autoconsciência. Tanto que Rahimi começa seu livro citando Dostoiévski, passa a metade revolvendo o terreno surrealista de Kafka em O Processo e chega ao fim emulando O Estrangeiro, de Albert Camus, para tratar do absurdo existencial. Tais autores e suas respectivas obras, para a maioria dos leitores, bastariam ao propósito de revelar o caos interno dos personagens desses livros citados, respectivamente Raskólnikov, Joseph K. e Mersault. No entanto, Murakami, Rahimi e Juan Eslava Galán são leitores que nunca parecem satisfeitos. Galán, em seu romance O Comedido Fidalgo, faz de Dom Alonso de Quesada o doppelgänger de Cervantes. Ao descrevê-lo como um caminhante solitário a caminho do cárcere, do qual só sairá para escrever aquele que é conhecido como o romance paródico por excelência, Galán sucumbe à teoria de Jorge Luis Borges sobre a circularidade de Dom Quixote.

O escritor argentino acreditava que os personagens da segunda parte de Dom Quixote leram a primeira metade do romance e levam o leitor a descobrir um paralelismo entre o que está escrito e sua vida pessoal. O fidalgo Alonso Quijano, nunca é demais lembrar, é um leitor voraz, que enlouquece de tanto ler romances de cavalaria, virando ele mesmo um cavaleiro. Galán garante que não enlouqueceu, mas, numa conversa com Cervantes, proposta a ele por uma revista, concluiu que "quanto mais o lemos, mais ele nos prende como um jogo de espelhos que se contém a si mesmo". Refletidos em seus modelos, Murakami, Rahimi e Galán - a exemplo de contemporâneos como o também espanhol Enrique Vila-Matas (Bartleby e Companhia)- alimentam a literatura nesse jogo especular incessante em que os escritores buscam abraçar a própria ficção, refletindo-se na imagem do outro. Não por vaidade, mas por desespero.

"Murakami tem uma visão aguda da sociedade contemporânea, capaz de observar o grau de solidão num mundo onde tudo é rápido e descartável", observa a diretora e cineasta Monique Gardenberg, de O Desaparecimento do Elefante. Sobre a recorrente citação dos clássicos, ela, que vai filmar A Caixa Preta, do israelense Amós Oz, lembra ser este um outro livro a fazer referência a Anna Karenina, de Tolstói. "Oz, ao contrário do que diz Tolstói no início do livro, não pensa que todas as famílias felizes se parecem, e que cada família infeliz é infeliz à sua maneira, mas defende que no sofrimento todos se igualam, que a felicidade é que é singular", diz a diretora. Ela vê nessa revisitação literária dos russos, em particular, não um sinal de esgotamento da ficção contemporânea, mas uma solução heterodoxa dos autores, especialmente Murakami, para traduzir sentimentos de deslocados sociais e inadaptáveis de todos os tempos, seja na Rússia czarista ou no Japão dos smartphones. A tradutora de 1Q84, Lica Hashimoto, a esse respeito, lembra que Murakami cresceu lendo escritores ocidentais (Dostoiévski, Stendhal, Kurt Vonnegut), chegando a "traduzir várias obras da literatura norte-americana, fator determinante para a sua formação literária".

Contudo, em 1Q84, Murakami buscou distância de Orwell, por considerar que seu olhar para a distopia elege outra perspectiva - não a da ficção científica dark, "em que está sempre chovendo e as pessoas são infelizes", como declarou numa entrevista ao jornal The New York Times. Obcecado pelo escuro e seduzido pela metáfora da profundeza dos abismos, Murakami - que aos 3 anos foi resgatado de um túnel - cria no livro um mundo subterrâneo onde seres minúsculos geram replicantes e a protagonista usa um picador de gelo para matar, povoando a história com personagens ambíguos e engraçados, como o do Líder, leitor de Os Irmãos Karamazov e ao mesmo tempo uma figura tirânica. Também o monstro Ushikawa, de natureza demoníaca, é capaz de assumir sua aparência repulsiva, mas ouve um concerto de violino de Sibelius na banheira. São várias as citações musicais de Murakami (que teve um clube de jazz), começando pela Sinfonietta do compositor checo Leos Janacek, ouvida no rádio do táxi que transporta Aomame.

É improvável, mas por que um taxista não pode ouvir uma peça de Janacek? Ao fazer a pergunta no livro, ele responde a outra questão que intriga a crítica sobre seu poder sedutor (Murakami é um best seller): por que um livro não pode ser ao mesmo tempo divertido e profundo? 1Q84 trata de temas que Dostoiévski já tratou, como a justiça divina e o terrorismo de lunáticos que se acreditam iluminados. A diferença está no jeito com que Murakami trata o Grande Inquisidor: ele é um irreverente compulsivo, disposto a abusar dos clássicos para renovar a ficção.

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