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Como o tempo passa!

Amanhã o pêndulo terá mudado seu curso, o bem e o mal terão voltado a suas antigas posturas

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2020 | 03h00

Os jornais, assim como as rádios e a TV, adoram convidar “especialistas”, pesquisadores, palestrantes, professores de sânscrito, pobres e ricos. Colocamos tudo na bandeja. O anfitrião chega, desperta seus convidados e diz o que vão debater. O resultado é, muitas vezes, desanimador. No melhor dos casos, surge uma dessas controvérsias com as quais se deleita o país de Voltaire e Racine.

Hoje está se formando uma dessas disputatio, como se dizia na Idade Média. Isso demonstra a volatilidade da opinião pública e a facilidade com que ela pode ir de um extremo a seu oposto. Tudo porque será publicado um livro que trata de um tema da moda, caro à Igreja: a pedofilia.

O detonador: um escritor hoje com 83 anos, calvo e muito bonito, que foi famoso no final do século passado e depois saiu de moda, é tema de um romance escrito por uma mulher (Vanessa) que, aos 13 ou 14 anos, era amiga de G. Matzneff. O livro ainda não está nas livrarias, mas imagino que essa Vanessa, quando jovem, ficou fascinada por esse dândi erudito, cortês e talentoso que a ensinou que “tudo é permitido”. Mais tarde, ela reavalia esse momento com severidade.

O que me pega não é o livro (que ainda não li), mas a forma como é recebido. Os comportamentos atribuídos a Matzneff hoje são objeto de reprovação maciça. Mas, nos anos 1970, os escritos de Matzneff, ainda que nunca tenham sido grandes sucessos de público, foram lidos e elogiados por intelectuais, perfeitamente alheios a essas práticas, mas preocupados apenas com a liberdade e o pensamento, recusando qualquer censura, de acordo com a fórmula maior das grandes revoltas de maio de 68: “É proibido proibir”.

Pessoas para quem o talento é o único critério. Estão acima dos padrões morais. No século 19, o grande poeta Baudelaire e o romancista Gustave Flaubert foram ameaçados em tribunal por causa da imoralidade de suas obras. E, ao longo dos séculos, a censura persistiu, sobretudo contra obras poderosas, belas por serem inovadoras e moral ou politicamente chocantes.

Essa é a lição a ser aprendida com a maneira com que esse livro será lido. Ela nos permite mensurar quando uma sociedade consegue se transformar – 50, 60 anos, e um ícone da moralidade passa a significar seu oposto. O bem e o mal se transformam em um carrossel incansável cujas imagens se passam e se trocam e depois retornam. Quarenta anos atrás, todos os franceses amavam o marechal Pétain. Três anos depois, os mesmos franceses aclamaram o general De Gaulle. Quarenta anos atrás, todo mundo fumava no cinema, no restaurante, em todo lugar. Tente acender um cigarro hoje e você será vaiado e xingado. Nossa existência está sempre oscilando de uma verdade a outra: bom ontem, ruim hoje. Mas não tem problema. Amanhã o pêndulo terá mudado seu curso, o bem e o mal terão retornado a suas antigas posturas, e assim por diante, até o fim dos tempos.

Voltemos a G. Matzneff e a sua eulogia da pedofilia. Hoje, depois da publicação do livro de Vanessa, os jornalistas tentam identificar e repreender as celebridades que se esqueceram de suas convicções daqueles anos bizarros. Daniel Cohn-Bendit, líder dos estudantes rebeldes de 1968 que se tornou deputado europeu (ecologistas), falou no rádio, em 1982, sobre as experiências sexuais das crianças: “A sexualidade de uma criança é absolutamente fantástica. Quando uma garota de 5 anos começa a se despir, é fantástico, é uma brincadeira absolutamente erótica”.

Mais insólito é encontrar Bernard Pivot entre as pessoas que não se lembram de suas posições anteriores. Ele foi, de longe, o produtor de TV mais talentoso desse período, devido a sua capacidade de leitura e a sua estatura moral. Isso o levou à presidência da Academia Goncourt.

Mas, em 1990, Pivot convida para seu programa Apostrophes este mesmo Gabriel Matzneff, que fala de seu amor por colegiais com palavras que hoje seriam jogadas no lixo e não apareceriam nem no pior dos programas da França. Pivot, em vez de refrear a verve de Matzneff, o encoraja. Matzneff se sente confortável. Sempre com um sorriso e muito talento.

Então, ali está Pivot, confuso com esses poetas de Saint-Germain-des-Prés que passam o tempo desafiando a moralidade e dizendo coisas hoje inconcebíveis e condenadas à censura. A irrupção de Pivot nessas acusações é surpreendente. Todos os que o conhecem de perto descrevem um homem que não corresponde a esses estetas de Saint-Germain-des-Prés que almejam estar acima dos padrões morais, em nome da arte ou da literatura. Aos coquetéis parisienses, Pivot prefere os campos, os livros, os bons restaurantes e os times de futebol, dos quais não perde nem um grande jogo. A verdade é que ele gosta de rir e quis apenas pôr um sal em seu programa, dando um lugar de destaque a Matzneff.

Os tempos mudaram. O que na época poderia ser motivo de riso ou anedota hoje é, mais corretamente, considerado uma tragédia. Não há melhor ilustração da volatilidade e da inconstância das opiniões públicas, que podem passar da permissividade extrema e reivindicada ao louvor das virtudes e da austeridade – para depois percorrerem o caminho inverso. É “o espírito dos tempos” que está mudando. Instado por jornalistas, Pivot disse que se arrependia desse episódio de seu programa.

TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

GILLES É CORRESPONDENTE EM PARIS

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