Nathan Asplund/The New York TImes
Nathan Asplund/The New York TImes

Como o Google Street View pode compensar sua viagem cancelada

Mesmo em quarentena, você ainda pode embarcar numa jornada, como explica o escritor Reif Larsen

Reif Larsen, The New York Times

27 de março de 2020 | 05h00

Outro dia, inquieto na minha mesa de trabalho, virei um viajante virtual. Fiquei olhando fotos de espaços públicos abandonados por causa da pandemia de coronavírus. Um jogo de futebol na Alemanha, disputado diante de milhares de assentos vagos. A Piazza San Marco em Veneza, deserta, salvo por uns poucos pombos confusos. São lugares construídos para humanos, mas não havia humanos. Era como vislumbrar o que pode ser o futuro depois que partirmos, um filme de desastre, só que na vida real.

Estamos entrando num tempo de guerra e de solidão. Todos nós precisamos fazer nossa parte. Um amigo cancelou um almoço comigo uns dias atrás, escrevendo: “Agora estou pondo em prática o distanciamento social. Não se ofenda”.

Não me ofendi. Todos nós estamos aprendendo um novo vocabulário: quarentena, período de incubação, achatamento da curva, ponto de inflexão. Estamos aprendendo quais são as dimensões exatas do contato. Estamos nos cumprimentando com os cotovelos; estamos cantando ‘Parabéns pra você’ duas vezes para marcar o tempo necessário para lavar as mãos (na verdade, não consigo passar do primeiro verso); estamos trabalhando de casa; estamos tentando dar aulas online; estamos (por razões que ainda não entendi) comprando quantidades absurdas de papel higiênico. 

Também estamos cancelando nossos planos de viagem, em proporções não vistas desde o 11 de Setembro. Daí as fotos de lugares vazios. Estávamos com uma viagem marcada para Charleston, na Carolina do Sul, em meados de março, mas tomamos a sábia decisão de não ir. Assim como muitas famílias com crianças pequenas, estamos nos aconchegando num casulo de quarentena voluntária, com a despensa cheia de feijão, a estante cheia de livros, a sala cheia de jogos de tabuleiro e um monte de incertezas.

Logo depois do cancelamento da viagem à Carolina do Sul, Max, meu filho de 3 anos, e eu demos um tempo nos jogos de tabuleiro e tentamos recriar a viagem virtualmente, usando uma das minhas ferramentas favoritas: o Google Street View. Na tela do computador, fingimos pousar no aeroporto de Charleston. Alugamos nosso carro, que cheirava a bala de morango e cigarros embolorados. 

Pegamos uma garoupa fresca em um mercado para grelhar depois. Max jogou umas pedrinhas na água do mar. Depois de caminharmos um pouco pela areia, dançamos que nem loucos na praia. Aí nos distraímos com os longos caminhos das casas das pessoas até seus píeres particulares e nos perguntamos: quão longe era uma coisa longe demais? 

Em suma, eu estava viajando, descobrindo. Não em carne e osso, mas, ainda assim, eu era um explorador. Já faz uma década que me sinto fascinado com o Google Street View. Você pode caminhar por quase todas as ruas do mundo, sem se importar com a neve, a chuva ou a escuridão. E, quando você se cansa do passeio, pode se teletransportar para um destino novo, num novo continente.

Mas também sou o primeiro a dizer que o Google Street View não substitui a realidade. Viajar no mundo real é fazer contato: contato com corpos, com superfícies, com novos alimentos, com novas águas, novos cheiros, novas luzes, novas línguas. 

Então, o que fazer? Quando não devemos viajar, quando não conseguimos pôr as mãos nas coisas que estão lá, como recriar virtualmente esse sentimento de descoberta?

Parte da resposta talvez esteja no exemplo do escritor de viagens que trabalha com a grande caixa de ferramentas da tecnologia. Muitas vezes, o que queremos é ver uma mente encontrando um lugar, é seguir uma pessoa enquanto ela tenta entender uma paisagem estrangeira e faz descobertas, comete erros, se lança ao desconhecido. 

Recentemente, com o advento dos dispositivos de realidade virtual, houve uma explosão de aplicativos como o Google Earth VR. Não se pode diminuir o valor educacional de algumas dessas experiências, mas amarrar uma engenhoca na cabeça ainda parece uma forma de refúgio, não de contato. Ainda prefiro os vídeos de gente caminhando pelas cidades. 

Mas talvez a solução óbvia para encontrar maravilhamento nesta temporada de reclusão seja outra: algumas das melhores jornadas nos aguardam exatamente onde estamos agora. Hoje, Max e eu quebramos a quarentena de nossa casa e demos um passeio pelo bosque. Vasculhamos o chão da floresta em busca do graveto perfeito; ficamos encantados com uma minhoca que não estava triste por não ter pernas; brincamos de procurar um urso mítico chamado Steve. Em algum momento, assustamos um bando de cervos, que começaram a correr pelo bosque. Max ficou boquiaberto com essa física galopante.

Quando nossa jornada chegou ao fim, entramos em casa e fizemos chocolate quente. O mundo lá fora parecia a um só tempo próximo e distante. Max tomou seu chocolate com incrível vagar, como se quisesse saboreá-lo por semanas. Por fim, ele parou e disse: “Fomos bem longe, não fomos?”. “Fomos sim”, respondi. “Vamos de novo amanhã?”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

Tudo o que sabemos sobre:
Googlecoronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.