Como nos bons tempos de Rubem Braga

Em O Espalhador de Passarinhos, o jornalista Humberto Werneck escreve como um mestre do gênero

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2010 | 00h00

É bom não confundir os títulos, até mesmo porque o mais recente é o ecologicamente correto O Espalhador de Passarinhos & Outras Crônicas, livro do escritor e jornalista Humberto Werneck que será lançado hoje, a partir das 18h30, na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915, tel. 3814-5811, Vila Madalena). O título original do livro de ensaios de Mário de Andrade, O Empalhador de Passarinhos (1944), jamais poderia ser aplicado à primeira das 65 crônicas que dá título ao livro de Werneck e coloca o mineiro entre seus pares mais celebrados do gênero ? o conterrâneo Paulo Mendes Campos (1922-1991), para citar outro ilustre jornalista e poeta de Belo Horizonte. Isso porque o "espalhador" de passarinhos não era chegado a um exercício de taxidemia. Hugo Werneck, o pai do autor, gostava mesmo era de preservar passarinhos vivos. É a sua história que o filho escolheu para abrir o livro.

Hugo Werneck morreu em 2008, aos 89 anos. Deixou 11 filhos e um sem-número de passarinhos espalhados pelo Triângulo Mineiro. Se você ouvir um pintassilgo cantando no Morro do Chapéu, perto de Belo Horizonte, pode apostar que seus ancestrais passaram pelas mãos do "espalhador" Hugo, que tinha alma passarinheira e o hábito de devolver à natureza frágeis cantores aprisionados em gaiolas. Volta e meia, um fiscal do Ibama invocava com seu Hugo, confundindo-o com um traficante de aves, conta o filho Humberto, mas o homem não desanimava. A exemplo do poeta Mário Quintana, sabia que aqueles que estão aí atravancando o caminho passarão. Eu passarinho, poderia dizer Hugo, um iluminado.

Como diz o filho, Deus está em toda parte ? mas pode ser que esteja um pouco mais em Minas, fonte de inspiração de muitas das 65 crônicas escritas entre 1990 e o ano passado. Werneck, que passou por vários gêneros, do ensaio literário (O Desatino da Rapaziada, 1992) à biografia (O Santo Sujo ? A Vida de Jayme Ovalle, 2009), decidiu que estava na hora de passar à crônica, cruzamento de literatura com jornalismo em que o olhar subjetivo do autor valoriza um acontecimento corriqueiro. "Minha geração foi criada lendo crônica", conta Werneck, que teve o estímulo da leitura dos mineiros da geração de 1945 e recebeu o batismo de fogo do autor de O Pirotécnico Zacarias, Murilo Rubião, seu mestre no jornalismo diário.

Werneck foi, entre outras coisas, redator-chefe da Playboy nos anos 1990. É dessa época uma história saborosa que ele conta em O Espalhador de Passarinhos, a da filha rebelde de Fidel Castro, Alina Fernández Revuelta, que fugiu de Cuba em 1993. Rompida com o pai e exilada, ela foi sondada para posar nua. Werneck foi atrás da ex-modelo, que saiu de Cuba "afilada como se posasse para Modigliani". Mas, aos 39 anos, ela já era uma matrona felliniana e, como não havia photoshop na época, era impossível tirar as polegadas a mais que sobravam em seu corpinho. Conclusão: as fotos foram destruídas na redação da revista e Alina ainda embolsou uma grana.

Entusiasmado com o gênero, Werneck prepara para a Companhia das Letras o segundo volume de Boa Companhia ? Crônicas, antologia de outros cronistas cujo primeiro volume, de 2005, teve várias reimpressões. E por que a crônica?. "É que em Minas já tem muito memorialista", responde o cronista, que vive em São Paulo.

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