Como nasceu o documentário Memórias de Xangai

Havia gente decepcionada com Jia Zhang-ke em Cannes, em 2010. Integrado de última hora à seleção oficial do maior festival do mundo, seu documentário I Wish I Knew desembarcou na Croisette com o que parecia uma credencial negativa. Nascido em 1970 e integrante da sexta geração do cinema chinês, Jia se converteu no grande crítico das transformações ocorridas no país. De The World a Still Life, sobre a construção da represa de Três Gargantas, seu cinema mostra como, em nome do progresso, a tradição é esmagada e os indivíduos são manipulados e oprimidos de uma forma até mais escandalosa do que sob o comunismo.

AE, Agência Estado

06 Julho 2012 | 11h19

Esse seria o Jia Zhang-ke de antes, porque I Wish I Knew, que estreia no Brasil como Memórias de Xangai, nasceu como obra de encomenda, para ser mostrada na Exposição Universal de 2010. Seria ?oficial?, portanto - mas não é verdade. Em Cannes, com a ajuda de intérprete, Jia diz que tinha 4 anos quando Michelangelo Antonioni fez A China. O filme foi alvo de uma campanha difamatória no país, que vivia a Revolução Cultural. Em nome dos preceitos do Livro Vermelho do camarada Mao, o grupo dirigente dos 4 realizava expurgos furiosos.

"Era a época da autocrítica, e Antonioni foi à China fazer um filme que não se enquadrava no que era nossa história. Assisti a seu documentário anos mais tarde, e aquelas eram imagens da China que não eram as oficiais, a que estávamos sujeitos. Encantou-me em especial a cena que retrata a casa de chá em Xangai. Eu não entendia o que aquelas pessoas diziam, mas havia algo ao mesmo tempo familiar e estranho, que me perturbava. O filme ficou comigo. Permanece até hoje", avalia o diretor. Xangai virou um mistério para ele, que descobriu que a cidade sempre foi muito cinematográfica. "Importantes personalidades artísticas, políticas e militares estão ligadas a ela. Durante muito tempo sonhei com uma ficção para tentar decifrar esse mistério. Foi quando veio a proposta para o documentário", resume.

Reconciliação. Jia nem sabe explicar como, num país tão dominado pela censura - a China neocapitalista, neste sentido, é herdeira da comunista -, a proposta que lhe foi feita era para a realização de um filme que ajudasse o mundo, e os chineses, a conhecerem Xangai. Ele pesquisou mais do que para qualquer filme que tenha feito antes.

Descobriu que, para decifrar o enigma de Xangai, tinha de encarar a diáspora chinesa. Quando os nacionalistas de Chiang Kai-chek foram derrotados pelos comunistas de Mao, levas de chineses deixaram a China, a partir de Xangai, e foram para Hong-Kong e Taiwan. No que parecia impossível, pouco tempo atrás, e dentro de um esforço de reconciliação nacional, Jia dá voz, senão exatamente a esses dissidentes, aos que descendem deles.

MEMÓRIAS DE XANGAI - Gênero: Documentário (China/ 2010, 125 min.).

Classificação: 12 anos.

As informações são do jornal O Estado de S.Paulo

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