Como nasce um sonho, em 12 passos

A criação de uma peça infantil de Gabriel Villela, com Luana Piovani

Fausto Viana e Rosane Muniz, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2010 | 00h00

Fazer arte no cantinho de um quarto é suficiente para estimular a imaginação das crianças. Mas nada como ter uma verdadeira fábrica cênica, tal como a atruz Luana Piovani e o diretor Gabriel Villela fizeram para levantar a produção do novo musical infantil O Soldadinho e a Bailarina, feliz adaptação de Sérgio Módena e Gustavo Wabner para o conto O Soldadinho de Chumbo, do dinamarquês Hans Christian Andersen. Invadimos os bastidores para descobrir nuances do espetáculo, que estreia domingo para convidados vips e fica até 25 de julho no Espaço Tom Jobim, dentro do Jardim Botânico, no Rio. Entre nesse sonho.

1. Ideias e decisões. Depois de 18 meses em cartaz e um público de mais de 80 mil pessoas com o infantil Alice no País das Maravilhas, corria o ano de 2007 e Luana Piovani seguia com sua segunda produção, O Pequeno Príncipe, que chegou a 200 mil espectadores. É quando apresenta a ideia de O Soldadinho e a Bailarina e a produtora Maria Siman aceita a proposta. "Tinha visto Romeu e Julieta, do grupo Galpão, em 1990, na rua, em Belo Horizonte, e me encantei não só com a linguagem e a direção do Gabriel Villela, mas com a estética que ele coloca em cena. Quando a Luana disse que queria alguém do Galpão para dirigir, algo mais artesanal, eu falei: você quer o Gabriel Villela!"

2. Captação. Ao longo de dois anos, Luana visita 17 patrocinadores, presenteando-os com um kit de brinquedos que montou para contar a história da peça a cada um dos empresários. Consegue quatro apoios, segundo a produção, totalizando 70% dos R$ 2.689.000,00 solicitados. "A visita é um prazer, mas a ansiedade de esperar é que é difícil", comenta.

3. Andanças. Villela aceita ser diretor, mas já estava programado para fazer sua segunda viagem ao Leste Europeu. Em Budapeste, encontra um comerciante que foi da cavalaria russa e depois montou uma lojinha na Hungria para vender, de fachada, peças de artesanato. Para conferir os tecidos e trajes antigos, Villela combina uma volta à loja no dia seguinte. "Eu já sabia sobre esses tecidos, por alto, porque minha avó tem ascendência ucraniana e lá se faz um linho ainda artesanal. Fui dizendo que precisava de mais peças e ele foi trazendo. Gastei em euros, mas valeu, já pensava nos figurinos."

4. O perfil do diretor. Villela começou com teatro amador em Carmo do Rio Claro, Minas, inserido na cultura dos teares de pedal, fibras naturais de algodão, lã de carneiro, tinturas naturais, pau Brasil. Diretor de teatro, iniciou no figurino e adereços do teatro profissional com Carlos Alberto Soffredini, no Minha Nossa, enquanto estudava na ECA-USP. "O que me estimula é ficar no ateliê brincando com essas coisas, mas não me considero o figurinista. As roupas têm um gerenciamento que é de diretor, não de figurinista", esclarece.

5.Testes. Escolhido o elenco, a "nova família" logo acha a "casa ateliê", que logo vira um espaço lúdico de trabalho sério. No segundo andar, a sala de figurino, a costura e o camarim, mais sala de dança de Luana. No primeiro piso, sala de ensaio e a multifuncional cozinha / escritório / ateliê de tingimento. No térreo, área externa para lanches e descanso. A construção é conjunta e o processo, colaborativo. "O Villela sabe o que quer e direciona com clareza, pois sabe pedir. O passe de bola é perfeito!", conta a coreógrafa Kika Freire.

6. Sem croquis. Gabriel Villela traz de Minas os procedimentos de criação a partir dos tecidos. "Meu acervo está em um barracão em Minas, com peças de vários espetáculos. Danificados, reconstruídos, esse material é reaproveitado conforme a necessidade." Para o ateliê no Rio, Villela traz um acervo enorme. Nenhuma roupa resulta igual à outra.

7. Equipe de apoio. O diretor também traz de Minas a estrutura dos procedimentos de criação. "Não acredito em mim sem abrir a frente de trabalho, formar uma equipe: a música da Babaya, os arranjos do Vitor Pozas, o Ernani Maletta nos arranjos de vozes com a polifonia popular ." A irmã de Villela, Giovanna, aplica pedrarias nos bordados e implanta a linguagem da Commedia dell''Arte que o diretor quer. Talentos de Minas Gerais. Nos figurinos, a Veluma, da Unidos da Tijuca, organiza, cuida dos detalhes, costura, borda. Alceny, costureira de alta-costura, aprende os truques do teatro. Edilson é homem para toda obra e se diverte com os tingimentos e envelhecimentos.

8. Início dos ensaios. Das 14h às 16h, Villela é, sim, figurinista e põe as mãos à obra. Depois é diretor. "Imaginei que não fosse cair no óbvio, mas ele me surpreendeu mais do que eu imaginava. Trouxe uma história, inclusive acadêmica, explicando a Grécia, o tecido de linho, primário, de onde vem a nossa arte, artesanal, rebuscada. Ele se importa com o figurino masculino tanto quanto o feminino. Essa cara rebuscada, mineira, da casa da avó, que era o que eu queria ao buscar o Gabriel, mas não sabia como viria", conta Luana. Villela lembra que ajudar o ator com a teoria facilita a compreensão do personagem. Pablo Áscoli, que faz o soldadinho, comenta: "Enquanto nos vestem, imaginamos a construção juntos."

9. Referências. Para atiçar lembranças, Gabriel Villela coloca tecidos na parede, desenhos, ambienta o ateliê: "Pego uns paninhos pra animar a alma. É um ateliê do Gepeto estilizado."

10. Adaptações e readaptações. As baratas, os personagens do submundo e as ratazanas foram compostas com sobras de figurino de Don Carlo, que Villela produziu para o Theatro Municipal de São Paulo. O traje vai sendo cortado no corpo do ator. Villela conta que "a personagem Harpa foi criada na mitologia com os nervos roubados do corpo de Zeus. Aí mandei fazer um monte de fibras no tear e ela tem uma cabeleira fibrosa e vários xales trançados em Minas que ela veste e ''atiça'' a imaginação das crianças". Janaína Azevedo, atriz que interpreta a Harpa, revela que ele começou a moldar nela o vestido, com um resto de tecido: "Colocou umas franjas enroladas no meu cabelo e foi uma sensação como poucas que tive na vida."

11. Conceito. "O José Eduardo Vendramini, meu professor na USP, me falou que tenho três coisas que sustentam minha cultura: a arte popular, o caráter religioso (a cultura de reisado, Aleijadinho, anjos de roca) e o circo-teatro, que eu presenciava muito na infância", conta Villela. "Quis utilizar a indumentária da Commedia dell"Arte. São tecidos claros que remetem à poeira da estrada, ao teatro itinerante", explica. Villela trabalha um estilo artesanal, dando vida aos bordados com aplicações de pedrarias, toques e retoques em detalhes dos trajes e adereços.

12. Preparação final. Um mês antes da estreia já estava uma tranquilidade, segundo Maria Siman. Villela só precisava marcar uma cena pequena, as músicas estavam ok e também 95% dos figurinos. O diretor dá crédito: ''Temos aqui o padrão Luana de qualidade. Ela busca o dinheiro e investe. Oferece tudo do melhor a todo o elenco. É mulher decidida." Agora é esperar, ver como essa engrenagem vai trabalhar no palco. E sonhar. Com Andersen.

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