COMO NASCE UM ESCRITOR

O engenheiro Nuno Camarneiro evoca Pessoa, Borges e Kafka em seu romance de estreia, lançado agora no País

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2012 | 02h05

Numa semana entre o Natal e o Ano Novo, esse tempo suspenso em que as pessoas estão mais reflexivas e caseiras avaliando erros e acertos do ano que se despede e fazendo promessas para o que começa, uma tempestade atinge um povoado litorâneo de Portugal e os moradores de um prédio se veem tendo de conviver ao mesmo tempo com esses seus fantasmas e com os vizinhos. É inverno, falta energia, o aquecedor não funciona, ninguém sai de casa - e se sai, é para ir ao apartamento ao lado.

Essa espécie de purgatório é o enredo de Debaixo de Algum Céu, que até poucos dias seria apenas o original do segundo romance de um jovem escritor. Mas a história rendeu a seu autor, o português Nuno Camarneiro, o Prêmio Leya, 100 mil, a edição do livro, que sai em março, uma chance de integrar a nova geração de escritores portugueses e um novo olhar para seu título de estreia, No Meu Peito Não Cabem Pássaros, que, coincidentemente, acaba de ser lançado no Brasil.

Nuno, que veio ao País em novembro com os conterrâneos Patrícia Reis, Sandro William Junqueira, João Ricardo Pedra e Patrícia Portela para divulgar a coleção Novíssimos, da Leya, tem 35 anos e não se dedica exclusivamente à escrita. Formado em Engenharia Física, já trabalhou na Organização Europeia Para a Investigação Nuclear (CERN) em Genebra, fez doutorado em Ciência Aplicada ao Patrimônio Cultural em Florença e hoje é professor no curso de restauro, ensinando técnicas de análise de obras de arte. O contato com a ficção veio na infância, e só depois ele passou a alimentar a curiosidade que envolve o ato de escrever. No período que viveu na Itália fazendo o doutorado, resolveu começar um livro justamente para aprender como se escreve um e para saber o que se passa com o escritor durante o processo. Nada científico, embora não tenha conseguido deixar de fora um fenômeno que assombrou o mundo em 1910: a passagem de dois cometas pela Terra, que causou pânico e levou algumas pessoas ao suicídio.

"Desde pequeno tive essas duas componentes na minha vida: a mais científica, prosaica, de querer perceber tudo, e a poética. É uma forma de eu me sentir mais realizado porque eu não sou só uma coisa e é difícil viver fechado numa gaveta", conta, de Aveiro, onde vive, às vésperas da virada do ano.

Para investigar esse processo criativo, Nuno recorreu a três de seus escritores preferidos, que viraram, direta ou indiretamente, seus personagens: Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges e Kafka. Trata os dois primeiros pelo prenome. De Kafka, tomou emprestado o personagem Karl, de Amerika. E foi imaginando o que teria acontecido com eles - se a descoberta do talento teria sido na infância, na juventude, se o fato de terem visto o cometa os influenciou de alguma forma - que ele construiu seu primeiro romance.

No Meu Peito Não Cabem Pássaros pode ser lido mesmo por quem não conhece os personagens, mas quem já os conhece vai encontrar pormenores, questões relacionadas à vida e à obra deles. "O que tentei foi comunicar cada um deles com o universo de suas obras. No Fernando Pessoa, tem aquele olhar para o outro, o sentir que está sempre noutro sítio, noutra realidade. Jorge tem a necessidade de inventar outros mundos, de fazer metaficção com a própria vida. No Karl há sempre qualquer coisa de vítima das circunstâncias." A história dos três se alterna e é contada em capítulos curtos, quase contos.

Camarneiro escreveu um personagem de cada vez, começando por Fernando (Lisboa), depois Jorge (a casa da infância, Genebra e Buenos Aires) e por fim Kafka (Nova York). Em momentos diferentes, chegou a gostar mais de um do que do outro. No saldo final, ficou com Fernando Pessoa. "Ele acabou sendo mais íntimo para mim. Entro muito na cabeça dele. Há ali muitas reflexões que são feitas entre ele e eu."

Nesse exercício de tentar descobrir de que é feita a essência do escritor, Nuno encontrou um tanto de angústia, melancolia e de desajuste com o mundo. "Quem é muito feliz não precisa escrever porque está ocupado em viver, mas há sempre uma angústia, uma melancolia, na maioria dos escritores que os empurra para a escrita. É um pouco quase como fazer psicanálise: uma maneira de explorar aquilo o que nos incomoda para podermos continuar a viver mesmo com isso. É melhor do que ir para uma escola e matar crianças."

Não se trata de um livro juvenil, mas tem caído no gosto dos adolescentes. Tanto que Nuno visita escolas para conversar sobre ele. "Falo que Fernando e Jorge tinham problemas na escola e que se sentiam muito sozinhos, e os adolescentes sentem isso todos os dias. São noções que conhecemos e que às vezes esquecemos." Essa identificação pode, na opinião de Nuno, levar os leitores a esses autores e ainda levá-los a procurar qualquer ato criativo para encontrar o seu lugar no mundo.

"Em todas as fases da minha vida, ou quando estava longe ou quando tinha problemas, os livros sempre me ajudaram muito." O mesmo vale para este período de crise econômica em Portugal. "Ainda não chegamos ao ponto mais baixo para começar a subir. As coisas estão difíceis e sente-se uma depressão de toda a gente, uma preocupação e um desalento geral. É difícil combater isso. Acho que a missão de quem escreve, de quem faz música ou cinema é pensar os problemas e identificá-los, mas também ajudar a dar algo de positivo e dizer que podemos sair disso."

Nuno tem algumas ideias para um novo livro, só não sabe aonde elas vão dar. Por ora não tem interesse em dedicar-se exclusivamente à literatura. Talvez em 10, 15 anos. Sabe que a escrita não é um lugar confortável. "É um exercício difícil, solitário. Estamos muito expostos nesse meio. Mas o conforto também não faz uma vida muito interessante. Precisamos sempre de algum desconforto", diz o escritor.

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