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Lee Siegel
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Como Lady Gaga

Esta semana eu pretendia escrever sobre Beppe Grillo, o comediante italiano que curiosamente se tornou, da noite para o dia, um grande player na política italiana, e usar esta circunstância para uma meditação solene sobre democracia, populismo, fascismo e clowns refrescantes versus bufões violentos (entenda-se, Berlusconi) - com referências a Mário e o Mágico de Thomas Mann, Gramsci, Pareto e aos Diários do Conde Ciano. Em vez disso, porém, vou escrever sobre Dr. Seuss.

Lee Siegel,

03 de março de 2013 | 02h09

Bem, não exatamente sobre Dr. Seuss, mas sobre o efeito que os escritos de Dr. Seuss estão produzindo em mim. Francamente, estou uma pilha de nervos. Pela segunda vez, eu me apresentei como voluntário para ler um livro para a turma de primeira série de meu filho, e estou tão ansioso que entre o primeiro parágrafo e este, fiz quatro visitas à cozinha para pegar comidinhas.

Não que a primeira vez que eu li uma coisa para sua turma tenha sido um desastre. Para mim, foi um sucesso esmagador, mas foi um desastre para a professora substituta que assistiu à minha performance cheia de exasperação e alarme. O livro que escolhi foi Mr. Brown Can Moo! Can You? de Dr. Seuss. Eu o escolhi porque Mr. Brown faz os sons mais maravilhosos, e eu imaginei que poderia dramatizá-los com grande efeito, deliciando com isso meu filho, e, no processo, melhorando seu status entre seus pares.

Comecei devagar com alguns sons de média dramaticidade como o zumbido de uma abelha e o barulho de uma rolha sendo tirada ("Pop Pop Pop Pop") e depois baixei a voz para um sussurro "para fazer o som de um beijo de peixinho dourado" ("Pip!"). Mas quando chegou o Mr. Brown, um assombro trovejante, eu gritei ("buum buum buum") diante de um silêncio coletivo embasbacado. Lancei um olhar angustiado para meu filho, cuja expressão horrorizada dizia algo como "o bobalhão do papai está fazendo papel de palhaço" e meu coração quase parou até que o silêncio assombroso cedeu lugar a um lento rumor de riso, que engrossou numa algaravia exuberante, enquanto os coleguinhas de meu filhos se agitavam e saltavam em tumultuosa alegria. Meu filho estava radiante de orgulho e gargalhando de contentamento.

Foi nesse ponto que a professora substituta - claramente alguém cujo fardo na vida era a absoluta incapacidade de sentir prazer - levantou os dedos indicador e médio no ar. Eu estava tão absorto no que acreditava que fosse uma espécie de sucesso em noite de estreia, que rapidamente se tornaria matéria de uma lenda local, que não reconheci o sinal universal de "paz", que era, como depois aprendi, o gesto usado na escola de meu filho para mandar todos ficarem em silêncio. Eu interpretei erroneamente o gesto (sem alegria) da substituta como um sinal para fortalecer o entusiasmo, e unindo-me aos alunos, que agora estavam fazendo o mesmo gesto com os dois dedos e começando a se acalmar, espetei meus dois dedos no ar em movimentos como os que as pessoas fazem em shows de heavy metal, clubes de strip-tease e lutas de boxe. Isso causou o efeito imediato de enviar meu precioso público de volta a algo próximo de um frenesi dionisíaco.

Mr. Brown termina com uma recapitulação dos sons que haviam surgido previamente, e eu os recitei, no início devagar, e depois um pouco mais depressa e mais depressa, crescendo para uma conclusão como fogo de metralhadora. A resposta foi fabulosa. Eu me senti a própria Lady Gaga. As crianças se atiravam pela sala, meu filho estava radiante de orgulho, e a professora substituta balançava a cabeça em desespero - ela claramente havia sido demitida do que deve ter sido um cargo anterior de guarda de prisão, por sussurrar insultos através das grades para presos em confinamento solitário. Para minha alegria, fui abordado então por uma pequena delegação de alunos, que pediram bis. "Ou você podia apenas ler o fim", disse um menino.

Contente a mais não poder, eu recomecei o livro. E agora começou a haver uma coisa interessante. Os alunos começaram, como criancinhas costumam fazer, a cuidar dos próprios afazeres em paralelo à minha recitação. Eles se transformaram de uma turba numa coleção de indivíduos. Meus fãs de carteirinha ainda gritavam seu encorajamento e sua aprovação. Meu filho continuava sentado sorrindo silenciosamente para mim, como fizera durante a primeira performance - talvez ele, instintivamente, sentisse que juntar-se ao pandemônio que eu havia criado era uma resposta impessoal demais para seu pai. Outro grupo conversava animadamente entre si. Uma menina alta, que algum dia com certeza será uma juíza da Suprema Corte, tentou fazer uma mediação entre o grupo e os fãs de carteirinha. O queridinho da professora, um menino, foi até a substituta e manifestou sua desaprovação pela atmosfera tumultuada. Sua contraparte feminina informou sobre um menino que estava tentando atirar algum objeto obscuro (talvez algum aluno menor) pela janela. Uma menininha veio até mim, me abraçou e me agradeceu pela leitura, e depois se juntou a um par de meninas e elas ficaram conversando durante todo meu recital. Em suma, eu estava perdendo meu público.

Só havia uma coisa a fazer. Acelerei a leitura para o final sensacional e o li com teatral entrega, com voz forte e despreocupada. Os indivíduos de novo começaram a se transformar numa turba, e o que fora anteriormente um pandemônio evoluía agora para puro caos. Liberados da rotina rançosa, da inanidade burocrática, de grupos sociais entorpecedores e de hierarquias sociais, os alunos se entrechocavam e corriam pela sala como buscapés.

Aí chegou a hora de eu partir. O pandemônio persistia. A turba começou a se atomizar. A professora substituta - que era obviamente dedicada à sua profissão e às crianças, e a instilar-lhes um senso de limite e de ordem - olhou para mim, exausta. As próprias crianças pareciam perdidas entre sua nova liberdade e suas velhas estruturas sustentadoras, e olhavam de mim para a professora e de novo para mim, felizes, exaustas, perdidas, esperando uma necessária orientação. Eu havia sido a um só tempo uma lufada de ar fresco e um repentino sopro gelado.

E agora, enquanto me preparo ansiosamente para minha segunda performance, creio entender o bastante para escrever sobre Beppe Grillo.

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