COMO JULGAR DEUS? Holocausto permite questionar a bondade divina, diz livro

MARCOS GUTERMAN

O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2012 | 02h10

Para um povo que se vê como "escolhido" por Deus, o Holocausto representou uma ameaça existencial à própria religião judaica, não só porque os judeus quase foram inteiramente aniquilados, mas porque a fé nessa relação especial com o Criador, baseada na convicção de que Ele é justo, bom e perfeito, ficou em xeque. A reação dos pensadores religiosos judeus e cristãos a esse impactante dilema aparece no notável livro A Teologia do Holocausto, de Ariel Finguerman.

Tema do doutorado de Finguerman na USP e na Universidade de Tel-Aviv, a obra parte da questão incontornável do Holocausto, enunciada até pelo papa Bento XVI em Auschwitz: "Onde estava Deus?". Finguerman mostra que os pensadores judeus mantiveram absoluto silêncio sobre essa questão, em parte graças à ideia, comum na Bíblia hebraica, de que aquele povo pode ter sido punido por Deus em razão de seus pecados. Mas o julgamento do criminoso nazista Adolf Eichmann em Jerusalém, em 1961, e a vitória de Israel na Guerra de 1967 abriram caminho para que os judeus encarassem o Holocausto sem o elemento da culpa - e Deus passou a ser questionado.

Como mostra Finguerman, alguns pensadores dizem que, do ponto de vista teológico, não importa se morreram 6 milhões de judeus, pois seria difícil conciliar a ideia de um Deus justo mesmo se apenas uma criança tivesse sido assassinada. Conclui-se que, por ser único, Deus é também responsável pelo mal, já que o criou. Ou seja, embora seja perfeito, Ele fez um mundo imperfeito. Mas quem realiza o mal é o homem, e a Justiça é algo apenas humano. O Holocausto é, assim, o sintoma do colapso moral da humanidade, razão pela qual a pergunta a ser feita não é "onde estava Deus?", mas "onde estava o homem?".

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