Como humanizar uma mulher malvada

Renata Sorrah fala das escolhas que fez para ser a rainha de Shakespeare

Gabriel Villela, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2010 | 00h00

Atriz: "Sei que estou fazendo um espetáculo bem vivo"        

 

ESPECIAL PARA O ESTADO

Houve um tempo em que as mulheres do mundo só podiam dizer três coisas: "Xô, galinha!", "Pra dentro, criança!" e "Sim, senhor!" Mary Stuart bradava: "Eu sou o rei!", na peça que dirigi com Renata Sorrah. Agora, Lady Macbeth surge também convocando forças masculinas. O diretor Aderbal Freire-Filho aproveitou isso muito bem e repassa para a interpretação de Renata o brado trágico, as forças viscerais, e mantém o Macbeth feito por Daniel Dantas mais racional, mais dado à reflexão e à metafísica. São duas interpretações que se completam e que renovam a forma de montar Macbeth. Por meio desses contrastes é que se criam novos parâmetros de entendimento da fábula e de percepção estética do texto shakespeariano. "Por isso é que resulta em um espetáculo vivo, fica uma leitura viva sobre o Macbeth, uma visão concreta, próxima do agora", diz Renata, na continuação de nossa entrevista.

Gabriel Villela - O que você viu e pesquisou para fazer a sua Lady Macbeth?

Renata Sorrah - Nunca vi nenhuma Lady Macbeth no palco, acredita Gabriel? Vi em vídeo a Judi Dench fazendo com Ian McKellen, e vi o filme Trono Manchado de Sangue, do Kurosawa, baseado na peça. Agora, ler eu li muito. O que existe de livro sobre Shakespeare dá para encher dez salas de Redação como esta imensa aqui do Estadão. Cada palavra que cada personagem diz tem um livro inteiro discorrendo sobre ela. Tivemos acesso, por exemplo, a um estudo só sobre as três batidas na porta que ocorrem em determinada cena de Macbeth. Sabe-se muito sobre Shakespeare.

Villela - E, ao mesmo tempo, nada se sabe...

Renata - Realmente. Você só vai saber quando está ali ensaiando, fazendo todas as tentativas, se entregando, sentindo, até chegar o momento em que você tem de fazer as suas escolhas para personagens tão ricos em possibilidades.

Villela - A tradução feita pelo próprio Aderbal e por João Dantas desce feito uma boa cachaça mineira pela garganta de todos os atores. Funciona e é brilhante. Vocês pensam em publicá-la?

Renata - Sim, há a ideia de um livro juntando as duas traduções do Shakespeare que o Aderbal fez e dirigiu recentemente, Hamlet e Macbeth.

Villela - Lady Macbeth manipula as andorinhas, o castelo, o rei, mensageiros, o oxigênio no pulmão do marido. Lida muito bem com forças demoníacas. E ainda enlouquece... Renata, como chegar em casa depois disso e dar um beijo no seu netinho?

Renata - Eu aprendi com o Amir Haddad. Ele me disse: "Quanto maior for sua entrega no palco, mais você consegue sair dele de um jeito verdadeiramente livre, desimpedido." Isso é verdade. Se tudo se resolve bem durante peça, o ator pode ir direto pra casa, não precisa ficar no bar até de madrugada. E, assim, deixo a Lady Macbeth e vou pra casa beijar o Miguel, meu neto. Ele nasceu quando estávamos na fase dos ensaios. E tem uma fala minha que é assim: "Eu arrancava esse nenê do meu peito, com suas gengivas ainda sem dentes, e esmigalhava o seu cérebro." Eu achei que não conseguiria dizer isso, porque meu neto estava pra nascer. Mas hoje vejo que não tem nada a ver uma coisa com a outra. Eu não misturo. E sabe do que eu mais gosto nesse ofício? Quando alguém me olha da plateia com aquele olhar de que sabe do que eu estou falando. Aí é que o teatro fica bom...

Villela - Para quem a conhece há tempos, é inevitável fazer uma pergunta. Você tinha um sonho adolescente, que era fazer O Sonho, de Strindberg, que também era a peça predileta de ninguém menos do que Bergman. Pergunto, citando Borges: "Caducaram os sonhos e os tigres?"

Renata - (suspira e depois ri) Não, não sei, mas não penso mais tanto nesse texto como antes. É uma peça muito linda. Nunca me esqueço da cena final de Fanny e Alexander, do Bergman, em que a avó abre um livro para ler para o neto e é a peça de Strindberg. Os deuses, a medicina, o direito, o teatro... está tudo lá. Acho que o que me consola é que eu posso fazer esta peça sempre, quando eu decidir, porque ela não tem aquele problema do limite de idade para a atriz. Adoro lembrar que Sarah Bernhardt, com 100 anos, fazia Joana d"Arc. Ela encarava a plateia e dizia: "Tenho 18 anos." E, pronto, aos 100 ela tinha 18, e como tinha...

Villela - Sei que você se recusou a fazer o papel da esposa, na peça A Cabra do Albee, na montagem do Jô Soares, dizendo: "Não, Jô, não posso fazer uma peça em que perco meu marido para uma cabra!"

Renata (gargalhando) - Mas, Gabriel, já não basta essa situação de traição? Tem de ser por uma cabra?!! Gente, todo mundo adorava esta peça, só eu que não! Fui correndo ver a montagem de Nova York, mas continuei não gostando. Não, não, não.... Não tive vontade de fazer. Eu não entendia a metáfora da cabra, isso não me interessou de jeito nenhum. (risos)

Villela - Glória Menezes, carinhosamente, definiu você como "um passarinho assustado". O que é que a assusta mais, o gato, a gaiola ou o voo?

Renata - (risos) Com certeza, me assusta a gaiola. Não tenho medo dos voos, não...

Villela - Mas e o gato, Renata?

Renata (dando um pulo na cadeira) - Ai, o gato! É mesmo, o gato! Esqueci do gato... (rindo) Ah, mas é a gaiola, mesmo, o que me assusta mais. Acho uma graça essa definição da Glória, mas, pensando bem, essa imagem não corresponde, não, nem comigo nem com a minha vida. Sou delicada, sim, mas não me assusto facilmente. Estou no Brasil, sobrevivendo da melhor maneira possível, fazendo teatro, prosseguindo nas lutas, me jogando, me apaixonando... Não, não sou um passarinho assustado.

Gabriel - Você fez A Gaivota...

Renata - É, já fiz A Gaivota. Chekhov pra mim é um dos maiores, sempre será...

Gabriel - Você continua acompanhando tudo o que acontece de novo no teatro mundial? Houve uma época em que não perdia nada, viajava pra ver novidades, queria conhecer as vanguardas...

Renata - Eu me preocupo muito em não perder essa curiosidade, mas me acomodei um pouco. Preciso fazer mais isso, de novo. Vi agora, no Rio, um grupo maravilhoso de Curitiba, a Cia. Brasileira de Teatro, fazendo uma peça chamada Vida!. Ficamos conversando sobre o dramaturgo Jean-Luc Lagarce, que eles montam muito. Ouvi falar sobre outro francês novo, o Joel Pomerat. E tem esse canadense, Daniel MacIvor, que escreveu In on It. Sempre gostei muito de ir atrás disso. Fiz um norueguês há pouco tempo, o Jon Fosse, Um Dia no Verão, e conversei muito com ele por telefone. Adoro farejar, descobrir.

Villela - Tem acompanhado a nova dramaturgia brasileira?

Renata - Já quis fazer Mario Bortolotto. Uma vez quase fiz um texto novo do Fauzi Arap. Gosto muito também do Newton Moreno.

Villela - Tem visto boas peças no Brasil?

Renata - No Rio, gostei de Otro, do Coletivo Improviso, com direção do Enrique Diaz. E adorei Beth Goulart fazendo Clarice Lispector. É um trabalho fantástico de atriz.

Villela - Renata, produzir nunca mais?

Renata - Claro que sim. É que tive esse convite irrecusável do Daniel Dantas para ser Lady Macbeth. Mas quero voltar a produzir. Adoro essa função. Desde escolher um texto até armar tudo, levantar o espetáculo. Como atriz, acabo de recusar Jocasta. A Companhia dos Atores me convidou, mas eu não quis. Quero agora um texto contemporâneo.

Villela - E cinema? São poucos convites ou é você que recusa muito?

Renata - Fiz mesmo pouco cinema. O teatro e a televisão não permitiam. E também agora é que o cinema brasileiro voltou a esquentar, não é? Tenho feito pequenas participações afetivas em ótimos filmes. São diretores novos muito interessantes. Fiz Nina, com Heitor Dhalia; Árido Movie, com Lírio Ferreira; Madame Satã, com Karim Aïnouz. Tenho gostado.

Vídeo. Assista a trechos da entrevista no site

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