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Como estudar

Um bom estudante é alguém focado e que tem clareza madura sobre o que deseja

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

14 Novembro 2018 | 02h00

Querida Camila Karnal: você me perguntou sobre método de estudo. Tenho algumas indicações que podem servir. Examine se servem para você, pois nenhum sistema é universal. Todas as indicações devem ser testadas e avaliadas no seu universo e adaptadas a suas metas.

A primeira pista é a regularidade. O cérebro responde à rotina com entusiasmo. Se puder, estude sempre nas mesmas horas, acordando no mesmo horário e no mesmo lugar quando possível. Nunca deixe para estudar “quando der vontade”. Estudo não precisa de inspiração, vontade ou dia propício. Somente crianças imaginam que o prazer seja a única causa da ação. Adultos sabem que devem fazer para colher mais adiante.

Foco é tudo. Nunca se pode estudar com fonte de comida permanente por perto, janelas que se abrem para paisagens interessantes. Você deve estar suficientemente confortável para não pensar em partes do corpo sendo machucadas e suficientemente focada para não dormir. Sempre e acima de tudo: não é possível estudar com celular anunciando mensagens. Marque horários para ver seu oráculo eletrônico e não controle a hora pelo celular: senão, não funciona! O maior inimigo da concentração é o seu smartphone. Quem não quer estudar deixa o aparelho acessível. Quem deseja focar com sucesso tranca em gaveta longe do seu ambiente de trabalho.

Um bom estudante é alguém metódico, focado e que tem clareza madura sobre o que deseja. Aqueles que não têm tais valores irão abordá-la com convites e desestímulos. Fuja deles.

Concentração é treino. Se você conseguiu meia hora de leitura plenamente atenta, vá aumentando aos poucos. Se sentiu fraquejar a compreensão, levante-se, lave o rosto, respire e volte. O uso de recursos como café deve ser moderado. Água ajuda a manter o corpo bem e os intervalos para o banheiro são pausas boas.

Estabeleça metas ambiciosas e reais para seu estudo. Qual o tempo de que você dispõe? Qual o volume de coisas? Tenha diante de si sua meta escrita e colocada de forma visível: a prova, o concurso, o semestre, o trabalho.

Existem muitos tipos de retenção de informações, querida Camila. Algumas pessoas precisam escrever e fazer esquemas. Outras usam marcadores de textos. Há pessoas que necessitam falar em voz alta o que estão estudando. Explicar para um colega de estudo funciona, ainda que o estudo seja sempre um ato solitário. Revisar em grupo (se for turma focada) é estimulante.

Fique atenta ao seu ritmo. Em qual momento começa a decair o foco? Quando está lendo e já não se lembra do que viu segundos atrás? É hora de uma pausa. O intervalo pode ser muito breve ou mais longo. Não ignore seu cansaço, porém não seja escrava de cada bocejo dado. De novo: atenção depende de treino.

Se algum problema a aflige antes de começar a estudar, escreva em um papel e o coloque de lado. É uma técnica para pensar naquilo depois.

Faça esquemas, listas de conceitos, frases importantes, ideias centrais emolduradas com cores e vá constituindo folhas organizadas. Pode parecer antigo, mas no caso de estudo é melhor fazer a mão, pois reforça a retenção e compreensão. Alguns estudos mostram que usar lápis ajuda ainda mais a reter o estudado do que se usarmos caneta. Talvez seja exagero. O importante, reveja muitas vezes o que escreveu. Varie: fale em voz alta, reescreva, repita, imagine melodias para os textos e conceitos e todo recurso que você considerar válido.

Estudar é para gente amadurecida. Se você precisa de alguém mandando ou estimulando, verificando ou cobrando, ainda não chegou lá. Você estuda porque isso vai transformar sua vida, vai lhe abrir horizontes e portas e irá desenvolver o seu potencial. Estudar é um prazer, acima de tudo, mas para chegar ao patamar do prazer (como com a musculação ou a dança clássica) é preciso suar um pouco e até enfrentar alguma dor. Os franceses chamam de “gosto pelo esforço” a essa determinação: goût de l’effort.

Eu descrevi ambientes ideais. Nem sempre dispomos deles. Seu avô estudava línguas com listas de palavras no ônibus a caminho de Porto Alegre. Conservei algumas com palavras em latim e inglês que ele ia memorizando no transporte. Temos de intensificar o resultado aproveitando muito. Depois de alcançar suas metas diárias e semanais, relaxe, saia com amigos, namore, caminhe e respire. Equilíbrio é fundamental. Esperar demais da máquina cerebral leva o motor a ter problemas estruturais. Não forçar nada faz do estudo algo ineficaz.

A força de alguém que sabe o que quer é avassaladora. Em um mundo de gente seguindo impulsos variados e cedendo a obstáculos imediatos, a dedicação intensa brilha como um diamante puro. Não importa muito o que você será em dez ou vinte anos. Há muitos destinos possíveis, todos passam pelo esforço do estudo. Aquilo que você investir nessa fase de formação é puro e líquido lucro a colher depois. A Camila de 2035 se voltará, saudosa e agradecida, à Camila de 2018. Você precisa acreditar no esforço e nunca desistir. Em um sábado à tarde ou domingo pela manhã, estudando sozinha e tendo recusado muitos convites, você terá demonstrado que seu projeto de vida vai além do fim de semana. Agora, releia tudo que escrevi, adapte à sua realidade e mude à vontade. Tudo é relativo, menos a história de afastar o celular. É preciso ter esperança!

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