Como era doce o exílio

The Gilbertos, a banda cult que ninguém viu, faz rara apresentação à noite na cidade

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2011 | 00h00

O guitarrista, cantor e compositor Thomas Pappon integrou duas bandas que os brasileiros ouviram muito pouco, mas que amaram muito: Fellini e The Gilbertos. A primeira, dos anos 80, foi menos invisível: influenciou barbaramente grupos posteriores, sendo citada até como referência pelo totem Chico Science. Mas a segunda, The Gilbertos, formada por ele mesmo e a mulher, Karla Pappon, em Londres, no início dos anos 1990, ninguém nunca ouviu ao vivo. Pelo menos no Brasil.

Pois bem: sem aviso prévio, de supetão, eis que o duo faz uma microturnê pela pauliceia. O show será hoje, às 21h, no Container Music & Arts (Rua Bela Cintra, 483), na região da Paulista. Thomas Pappon tem como reforços o baixista Akira van der S (que já foi conhecido como Akira Tsukimoto, músico que mantinha a banda indie dos anos 1980 Akira S e as Garotas Que Erraram), o tecladista Astronauta Pinguim (Minimoog, Moog Prodigy, orgão e piano eletrônico) e o baterista Felipe Maia.

The Gilbertos tornou-se admirado com Eurosambas 1992-1998, disco que saiu em 1999 pelo selo independente Midsummer Madness, e que continua sendo vendido há anos nas grandes galerias de São Paulo. Poucas coisas têm tanta bossa e ao mesmo tempo tanto sabor de exílio quanto as canções Everywhere ou Erundina Song. E um nonsense estranhamente familiar. Em Les Trois Maries, Pappon rimava "Mãe Menininha do Gantois com "le cine noir". E as guitarras de Esguiço remetem ao melhor do post punk de The Jesus and Mary Chain.

Paulistano de ascendência alemã, o guitarrista vive em Londres desde o início dos anos 1990. Após deixar o Fellini, que encabeçava com Cadão Volpato (o grupo foi ativo entre 1984 e 1991), Pappon se dedicou a fazer um disco no estúdio doméstico que mantinha em sua casa na capital inglesa. O resultado foram os Eurosambas, cujo nome era uma referência irônica ao disco clássico de Baden e Vinicius.

Segundo contou, na época, The Gilbertos era como uma espécie de continuação do Fellini, com uso de tecnologia low fi, tecladinhos de terceira, sonoridade meio vintage. Pappon não vive uma fase de criação compulsiva. Pappon morou oito meses em Frankfurt e quatro anos em Colônia, na Alemanha. Começou a brincar com samples na época - Eurosambas continha samples de Jimmy Scott, Patricia Bartoli-Dau, Cinqui So, Arvo Päart e o Quinteto Armorial. Akira Tsukimoto já colaborava com o disco, pela via da internet.

"Quando eu fui para a Europa, sabia que nunca ia conseguir formar uma banda, porque para mim uma banda é uma espécie de irmandade", afirmou, na época. "Eu sabia que a música só ia funcionar de novo para mim se eu fizesse sozinho, e foi o que aconteceu." O músico chegou a mandar fitas demos para gravadoras europeias e tinha intenção, no início, de levar a música adiante. Não deu. Mas aquilo que ele gestou, na época, nunca deixou de se espalhar como vírus pelos ouvidos da cidade natal, São Paulo. E é dia de ouvir ao vivo. Em tempo: o nome do grupo não é homenagem a João Gilberto, apenas um nome de efeito - adequado para um som que se rotula como post-MPB.

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