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''Como eles me tornaram coreógrafo''

Jerôme Bel estreou em São Paulo em 1999, no Sesc Belenzinho, com Nom Donné par l"Auteur (1994), sua primeira coreografia criada para objetos. Mostrou depois The Show Must Go on (2001) na Mostra Ares e Pensares, que o Sesc realizou em 2002. Em 2005 foi a vez de Le Dernier Spectacle e de Shirtology, apresentadas no Itaú Cultural, onde, em 2006, Isabel Torres fez parte do evento Primeira Pessoa.

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2011 | 00h00

Os monólogos biográficos que vem criando hoje formam um conjunto de seis produções, na qual Jerôme inclui dois duetos: o que apresenta com Pinchet Klunchun (2005) e o que acaba de fazer para Anne Teresa de Keersmaeker e Sara Fulgoni (2010). Em entrevista por e-mail, Jerôme explica o porquê.

Qual é a proposta que esta série de obras biográficas traz?

Apenas muito recentemente pude descobrir que o desejo de fazer essas peças provém dos choques estéticos que fizeram parte do tempo em que comecei a dançar. O meu interesse pelo balé é mais cultural que pessoal. Cada solo está ligado a experiências como espectador que foram determinantes. Pichet Klunchun & Myself (2004), mesmo sendo duo, se inscreve dentro desta série. Trata-se de um bailarino tailandês que representa o teatro extraocidental e, para mim, foi revelador da natureza do próprio teatro. Cédric Andrieux (2009) é a minha pesquisa sobre o impacto que tive na primeira vez em que assisti Merce Cunningham, em 1983. Lutz Foerster (2009) representa a importância da Pina Bausch dos anos 80 no meu trabalho. 3Abschield (2010), mesmo sendo formalmente diferente, dá conta de um elemento constitutivo da minha pessoa e da minha prática: o trabalho de Anne Teresa de Keersmaeker. É isso que está nessa série, que é uma espécie de investigação para tentar compreender por que fui transformado pelas obras desses criadores. Uma espécie de Em Busca do Tempo Perdido (referindo-se à série de Marcel Proust). Ou um "como me tornei coreógrafo". Pois que me tornei um graças à Merce, Pina, Anne Teresa, ao Kabuki, ao Baratha Natyam, e por aí vai.

Existe alguma ligação entre o solo de Cédric Andrieux e os de Veronique Doisneau e de Isabel Torres?

Sim, há uma ligação formal. São monólogos de bailarinos baseados nas suas biografias e, sobretudo, nas suas experiências profissionais. O que me interessa é conseguir tornar compreensíveis certos discursos - o discurso sobre a dança é principalmente produzido pelos críticos e pelos coreógrafos, e o discurso dos bailarinos, salvo muito raras exceções, não é quase audível. Gostaria de mostrar, de forma paralela, as condições de trabalho dos bailarinos e os projetos artísticos dos quais eles participam. A operação principal desta série é considerar o bailarino como um trabalhador, tentar que a exposição desse trabalho interesse aos outros trabalhadores que estejam na plateia, aos espectadores, pois quase todos nós somos trabalhadores, não? No desvelar do trabalho do bailarino, perceber como certos projetos artísticos podem ser alienantes ou, ao contrário, emancipadores. Porque medir o grau de alienação ou de emancipação do trabalho artístico é o que motiva o meu trabalho atualmente, incluindo aí a minha própria produção. Para mim, para os intérpretes e para os espectadores, a questão da política da obra é muito importante.

Você vai continuar a criar obras biográficas?

Ainda não sei. Eu preferiria parar, mas há vários bailarinos e atores que gostariam que os ajudasse a produzir um solo como estes que já fiz. No momento, eu estudo alguns monólogos para descobrir se rendem um espetáculo. O bom é que o formato está agora bem claro, o que torna tudo muito mais fácil, embora em cada monólogo apareçam novas questões. É por isso que ainda estou hesitante entre continuar a série ou interrompê-la. Estou em vias de começar algo oposto ao que fiz até agora, o que é um pouco desestabilizador também.

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