Como desmontar uma tese: Hollywood e a política

Prêmios do Oscar 2013 ignoraram saudações da crítica que chamaram atenção para quantidade de filmes que confrontavam os EUA

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S.Paulo

26 Fevereiro 2013 | 02h09

Foi o pior Oscar dos últimos tempos. Por que só dos últimos? Já tem gente dizendo que o Oscar de 2013 vai entrar para a história como o pior de todos os tempos. Aquela entrada do capitão Kirk, viajando no túnel do tempo, foi profética - Seth MacFarlane foi o pior host do Oscar. Como ninguém ria de suas piadas, ele foi ficando sem graça, encabulado, como bem observou Inácio de Loyola Brandão num recado para o repórter. O resultado foi o constrangimento.

Mas a cerimônia não foi ruim só porque o âncora não correspondeu ou os velhinhos que assinaram o show já estavam gagás. Num ano em que a crítica saudou o Oscar como político, por confrontar os EUA com sua história passada e recente, os prêmios meio que se esmeraram em desmontar a tese. Mas conceda-se - a lista dos indicados era boa e, apesar da preferência por este ou aquele título, os filmes, como um todo, tinham seu valor. Só que a Academia, em vez de premiar os melhores, seguiu o caminho inverso e elegeu os piores.

Argo não foi o melhor de coisa nenhuma e certas soluções da narrativa - esticando o suspense, promovendo o riso ou a tensão -, deixaram claro que o talentoso Ben Affleck escolheu trabalhar no registro da tradição. O melhor de Argo é a própria história e o resgate que o diretor faz de um episódio pouco conhecido da história norte-americana. Ang Lee também não foi o melhor diretor, embora não fosse fácil concentrar a narrativa e o mundo num bote salva-vidas. Como filmar no oceano com um tigre? Lee escolheu a via do digital, a Hollywood dos efeitos. O tigre, a baleia voadora, tudo cortesia do computador. A mágica de Hollywood, com toda a sua eficiência. Legal, mas não the best.

A Academia dispersou sua premiação - o recordista de estatuetas do ano teve quatro, num total de 11 indicações, e foi Pi. Steven Spielberg foi o derrotado - com 12 indicações, o recorde do ano, Lincoln teve só dois prêmios, o de melhor ator para Daniel Day-Lewis e o de desenho de produção. Lincoln, uma celebração da política - da arte da negociação na política -, merecia mais do que teve e o próprio Spielberg, pelo esplendor da realização, merecia ter ganhado prêmio próprio.

Kathryn Bigelow também, mas Lincoln e A Hora Mais Escura foram cobrados e acusados de falsificar detalhes da grande História. A América de Lincoln, a da escravidão, rendeu dois bons prêmios para Quentin Tarantino, por Django Livre - melhor roteiro original e melhor ator coadjuvante (Christoph Waltz). A América do presente, confrontada com o mundo islâmico, deu um Oscar fajuto para Bigelow, em A Hora Mais Escura, e o de melhor filme para Affleck, mas ele não foi o melhor diretor. Foi uma premiação torta - teria sido de qualquer maneira. Jennifer Lawrence, aplaudida de pé - por O Lado Bom da Vida! -, bateu Emmanuelle Riva, de Amor, de Michael Haneke (melhor filme estrangeiro). Mas a mítica atriz de Hiroshima, Meu Amor teve direito a um close visto por 1 bilhão de espectadores no mundo. Foi pouco para tanta arte. O Oscar de 2013 prometeu e não cumpriu. Foi uma ejaculação precoce ou, pior, um coito interrompido. Toda premiação é polêmica. Essa foi demais, mesmo que os filmes, eventualmente, fossem bons

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