Como chegar a Asakusa

TÓQUIO

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2010 | 00h00

Quando o trem da linha Oedo parou, às 23h59, em uma estação, para mim desconhecida, nesta cidade gigantesca, fiquei surpreso e um tanto ou quanto preocupado. Ainda mais quando entrou no vagão o guarda a gesticular para todo mundo sair. Não entendia nada do que dizia, mas os gestos me eram claros. Saia todo mundo. Fim da linha.

Injusto seria dizer que não me alertaram. Mais de uma pessoa avisara que à meia-noite o metrô de Tóquio para e o trem estaciona na vaga mais próxima. Mas não acreditei. Azar meu, pensei. Quem mandou desafiar os deuses do Oriente?

O problema era encontrar o caminho de casa, como outrora cantava o grupo de rock Blind Faith. No fundo, desconfiara dos alertas. Onde se viu metrô que para onde estiver? Dentro da minha lógica ocidental era inconcebível. Em todos os metrôs da minha vida, o último trem vai até o fim da linha. Quem pegou, pegou. Quem não pegou, não pega mais. Por que Tóquio seria diferente?

Saíra para jantar no Gonpachi Nishi-Azabu, restaurante que serviu de inspiração para o cenário do massacre no filme Kill Bill 1. Não sou cinéfilo. Minha cultura cinematográfica é precária. Mas sou, sim, fã confesso do diretor americano Quentin Tarantino. Quem me lê com alguma frequência sabe disso. E ele, por sua vez, é tarado pelo Japão.

É fácil entender o entusiasmo do cineasta, agora que conheço a capital do país. Tóquio reúne uma quantidade de movimentos, informações e gente que nunca vi juntos no mesmo lugar. Traz, ainda, o charme de ser indecifrável aos olhos de quem, como eu, desconhece o idioma dos japoneses.

Esforço-me, não é isso. Já estou arrasando nos Arigatoo gozaimasu (obrigado), Ohayoo (bom dia) e Konnichiwa (boa tarde). E tenho estímulo. Toda vez que abro a boca para falar, os nativos e, sobretudo, as nativas, recatados em geral, dão boas risadas. Ainda não consegui precisar os motivos de tamanha diversão por parte deles. Mas é justa. Também tiro sarro do inglês das placas japonesas. E não sou só eu. Há sites inteiros dedicados ao assunto, com direito a votação pelas melhores frases. Em www.engrish.com, o primeiro lugar é ocupado no momento por uma que diz: "Beware of tourism" (Cuidado com o turismo). Imagino que minhas tentativas de falar japonês sejam igualmente hilárias e vagas.

O movimento de Tóquio é intenso e preciso. Aqui, em Asakusa, onde fica meu hotelzinho, as embarcações no Rio Sumida saem a cada 15 minutos, há diversas linhas de metrô e trem, automóveis, táxis, ônibus de diferentes formatos e tamanhos, rickshaws, pedestres de monte, sem nem falar das bicicletas, que estão por toda parte, aos milhares. Até onde entendi, são elas que têm a preferência. Descobri no metrô um estacionamento subterrâneo vasto - apenas de bicicletas. Essa mobilidade toda funciona que nem relógio. Sei que deve ser falta de experiência da minha parte, mas não vi sequer sinal de trânsito parado em horário nenhum. É de tirar o chapéu. Os prefeitos do mundo todo deveriam vir para cá aprender com o transporte de Tóquio.

Recomendo também o Gonpachi Nishi-Azabu, o restaurante que serviu de cenário para Kill Bill. A comida é das melhores que tive o prazer de experimentar neste país de gourmets. Os garçons e garçonetes falam inglês e têm, quase todos, um quê de personagens do Tarantino mesmo. Fui jantar lá na noite de Halloween, 31 de outubro, que é festejado com gosto aqui. Ao sair, encontramos pela rua lindas enfermeiras em saias curtíssimas, cinderelas, fadas com asas e um Batman desengonçado e memorável.

Mas se você me permite um conselho: termine a refeição a tempo de pegar o metrô. À meia-noite, ele para e estaciona na vaga mais próxima. Em Tóquio, a precisão da ida vale também na volta. Não chega a ser um problema insolúvel. Há táxis à espera dos incautos na porta do metrô. A única dificuldade é a de fazer o motorista entender aonde se pretende chegar. Foram umas 30 tentativas com entonações e pronúncias diversas, diante de uma cara de perfeita incompreensão, até, ufa, o taxista responder, enfim: "Aaaaaahhh, Asakusa." Só faltou ele emendar: por que não disseram antes?

PS: Soube depois que há ainda um último trem de metrô que pega quem ficou pelo caminho. Mas é preciso saber encontrá-lo. Deve ter sido isso que o guarda dizia.

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