Como capturar público pela emoção

Com a Filarmônica de Hannover, Eiji Oue não levou nem três minutos para mostrar por que ele é um supermaestro

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2010 | 00h00

Maestro Eiji Oue. Ator com absoluto controle sobre os músicos e a obra complexa

 

 

Nos primeiros 90 compassos do concerto para violino de Brahms, que duram pouco menos de 3 minutos, a orquestra faz bem mais do que apenas preparar a entrada do solista: enuncia o primeiro tema, deriva para alguns temas secundários, expondo toda a sua riqueza de timbres, inicialmente nas cordas, depois nos oboés, retorna às cordas e madeiras em uníssono, até enunciar de novo o tema principal num tutti, driblar a expectativa do solista com mais motivos, agora com acentos ciganos. Foram nesses 90 compassos que o maestro Eiji Oue mostrou na segunda-feira, que queria mesmo capturar a plateia da Sala São Paulo pela emoção: acentuou fraseados, trabalhou cada dinâmica, esculpiu volteios no ar... enfim, como repetiria até o fim do concerto, Oue foi um ator no pódio, bem na linha de seu guru performático Bernstein, à frente da Filarmônica de Hannover.

A figura do maestro surgiu historicamente apenas para marcar os compassos no século 17 (Lully morreu de infecção no pé ao bater com um pesado cajado os compassos); no século seguinte, músicos como Haydn comandavam do cravo a orquestra; apenas em meados do século 19, quando a chamada "indústria" da música clássica já estava a pleno vapor, adentraram à cena as batutas e as figuras dos supermaestros. Nada contra gestos espetaculosos, desde que o regente mantenha o controle da orquestra. É bom saber atrair visualmente o público, melhor ainda exibir consistência musical a seus comandados. Nesse quesito, Oue foi perfeito. Tem absoluto comando sobre seus instrumentistas, evidência ainda mais manifesta na segunda parte, com a execução apaixonada e envolvente da Sinfonia Novo Mundo, de Dvorák.

A loura e alta figura da violinista holandesa Isabelle van Keulen, de 43 anos, dominou a primeira parte, com interpretação irretocável de um concerto complexo, em que o violino terça lanças o tempo todo com uma orquestra parruda. Esse foi o primeiro concerto para violino em que se acentua o caráter percussivo do instrumento, lembra o pesquisador e maestro Leon Botstein. Isabelle teria agradado demais a Joseph Joachim, o violinista amigo e parceiro de Brahms. Este corrigiu, acrescentou e cortou muita coisa do manuscrito original do compositor; e, num belo e analítico texto dos anos 1880, escreve que esse concerto combina, em doses nunca antes alcançadas, liberdade e rigor. Ou seja, embora exija muito, tecnicamente, do intérprete, o virtuosismo não deve sobrepor-se jamais à correta leitura da obra. E, por correta, Joachim não queria dizer fidelidade canina ao texto. O próprio Brahms, após o concerto editado, dizia que gostava de ouvi-lo com o amigo Joachim, porque ele tomava as liberdades certas.

Nesse sentido, Oue, Isabelle e a orquestra foram admiráveis. Foi uma interpretação que, reouvida várias vezes, talvez soe excessiva na acentuação da dinâmica e do fraseado e nos rubatos ? mas, ao vivo, funciona de modo formidável. Esta é, afinal, a diferença entre a música ao vivo e a gravada. A primeira é sanguínea (e, se não for assim, melhor esquecê-la). A segunda acaba sendo empurrada para a assepsia de laboratório que na maioria das vezes lembra a pobre borboleta morta, espetada num quadro.

Excelentes as madeiras e metais, sobretudo as trompas, muito exigidas em Dvorák; faltou uma pitada de meios-tons no fluxo de dinâmicas, muito contrastantes. Licenças poéticas compreensíveis e justificáveis em concertos. Partituras não são borboletas mortas espetadas na parede, e sim cartas de navegação imprecisas. E a genialidade da obra musical só se torna viva diante do público quando recriada com a participação efetiva da sensibilidade de intérpretes competentes.

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