Como boia de salvação

Programa fortalece a cena baiana que não é da axé music e do pagode

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2011 | 00h00

SALVADOR

Como no ano passado, a segunda edição do programa Conexão Vivo em Salvador teve público crescente a cada noite de shows, desde quinta-feira na Praia da Pituba. O local já é convidativo, uma espaçosa praça gramada na beira do mar, onde antes existia o Clube Português. Na sexta-feira, a chuva forte que caiu em vários momentos provocou transtornos, mas não espantou os resistentes fãs de Lenine que ficaram até o fim do show.

Alguns problemas técnicos não tiveram nada que ver com as intempéries naturais. O telão apresentou falhas, o som de um dos palcos não estava bom na primeira noite, no sábado Érika Machado teve de interromper sua apresentação por conta disso, antes de receber a convidada baiana Rebeca Matta, que enfim botou gás de rock na fofura mineira.

Apesar disso, o resultado foi bom, e a resposta do público baiano é a comprovação de que nem tudo que cai no gosto popular é o clichê festivo da axé music. Estrela local ascendente, Mariene de Castro - que botou fé em seu projeto Santo de Casa, fazendo "milagres" pela preservação da cultura popular baiana - provocou grande comoção em sua participação no show do coletivo mineiro Samba do Compositor.

Outro encontro de Minas com Bahia, Gilvan de Oliveira e Armandinho, atestou que a boa e suingada música instrumental pode, sim, agradar a multidão. Manuela Rodrigues, Claudia Cunha e Sandra Simões mostraram outro lado, mais brejeiro e harmônico, da música de carnaval de várias épocas. A baiana Marcia Castro também revitalizou clássicos potentes da canção brasileira e abriu as portas para a cabo-verdiana Mayra Andrade, muito bem recebida em sua estreia na Bahia.

Enfim, há uma outra cara da Bahia - como a do hip-hop num bom duelo de MCs com os mineiros do coletivo Família de Rua -, que agora ganha apoio de peso para superar o massacre da indústria da axé music. E essa série de apresentações é apenas a ponta mais visível das ações do programa Conexão Vivo, nascido em Belo Horizonte há 11 anos, que além da circulação de shows, como os de Manuela Rodrigues e do veterano mineiro Marku Ribas, promove ações contínuas o ano todo com oficinas, cursos e gravações de CDs.

Piti Canella, produtora executiva e gestora do programa na Bahia, já trabalhou com Carlinhos Brown, Gilberto Gil, Daniela Mercury, entre outros, e conhece bem esse universo da música baiana há 20 anos nessa função. Os artistas baianos - que além de Salvador vieram de outras cidades, como Alisson Menezes e a Catrupia (Vitória da Conquista), e vão circular por outras (Feira de Santana, Juazeiro, Itabuna e Vitória da Conquista) - foram selecionados por meio de edital público, com projetos já aprovados no Faz Cultura, a lei de incentivo baiana.

"Além da Vivo a gente usa verba do ICMS. Este ano tivemos uma curadoria que escolheu 43 projetos. No ano passado foram 16", conta Piti. Para a produtora, o Conexão Vivo "veio quase como uma boia de salvação" para quem faz outro tipo de música, na Bahia, que não axé e pagode.

"A gente tem e consome uma produção musical efervescente na Bahia e programas como o Conexão Vivo, com essa plataforma forte de patrocínio, que incentiva os grupos a trabalhar em rede, a trabalhar o coletivo é a salvação. A Bahia sempre teve música boa, sempre teve rock and roll, nomes fortes do reggae, a gente tem de mostrar isso."

DESTAQUES

Quarteto M

O show de Marcia Castro convidando Mayra Andrade, Mariella Santiago e Mariana Aydar, na sexta, foi um dos pontos altos do evento.

Tropical jazz

O encontro da superbanda Senta a Pua! com Elza Soares foi antológico. Gilvan de Oliveira com Armandinho fizeram duelo de cordas arrebatador. Dois shows dignos de figurar nos melhores festivais internacionais de jazz.

Guitar Heroes

A quinta-feira teve presença marcante dos guitar heroes Pepeu Gomes, Edgard Scandurra, Luiz Chagas e Armandinho. Sábado Pepeu e Armandinho tocaram juntos, como nos tempos de Novos Baianos, com a A Cor do Som.

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