Como aprender a ler, segundo Borges

"Acho que a única coisa que a gente pode ensinar é o amor a alguma coisa... Eu ensinei, não literatura inglesa, mas o amor a essa literatura. Ou melhor, já que a literatura é virtualmente infinita, o amor a certos livros a certas páginas, talvez a certos versos". O "professor" Borges ditou um curso de 25 aulas de literatura inglesa durante 12 anos, antes ainda que se tornasse uma celebridade mundial. As aulas foram gravadas e transcritas, para que os alunos que trabalhavam e não podiam ter acesso ao curso pudessem lê-las. As fitas se perderam, mas as transcrições permitiram que dois alunos reconstituíssem, apoiados em suas notas e em pesquisa, o curso sob a forma de livro, conseguindo manter o estilo oral de Borges.Nas palavras do escritor, a cátedra que lhe foi concedida em 1956 - significativamente logo depois da derrubada de Perón - era "uma das felicidades que me restam". Vários candidatos se apresentaram para o posto, com enormes currículos e trabalhos publicados, enquanto Borges simplesmente declarou: "Sem me dar conta, eu estive me preparando para este posto toda a minha vida". E ficou com a cátedra.O texto do livro corresponde ao décimo ano do curso de Borges, em 1966. Nele, o mestre se subordina, de forma disciplinada, a temas que ele definiu previamente, situação que diz preferir, porque sabe que os alunos vêm porque se interessam pelo conteúdo. Diferentemente das conferências, em que ele se sentia olhado como raridade.Seu critério de seleção é definido por ele como "hedonístico": o critério do prazer que os autores e as obras lhe propiciam, valendo-se de referências históricas só na medida em que o estudo das obras o requeira, situando igualmente os autores por cima das correntes literárias a que supostamente pertenceriam, enfocando-os na individualidade da sua criação. Provavelmente da forma como ele gostaria que sua própria obra fosse analisada. No momento dos cursos, Borges já estava quase completamente cego, usando portanto citações de memória e pedindo aos alunos que lessem em voz alta algumas delas, já que ele nunca utilizou o braile.A seleção começa com a chegada à Inglaterra dos anglos, dos jutos e dos saxões, no século 5, passando por Samuel Johnson por Macpherson, pelos poetas românticos e pela época vitoriana, terminando no século 19, com um de seus escritores preferidos, Robert Luis Stevenson. A literatura anglo-saxônica é privilegiada por Borges, com um total de 7 aulas, quase um quarto do curso.Valendo-se de seus autores argentinos preferidos, Borges desenvolve comparações entre Coleridge e Macedônio Fernández, mas o faz também entre Coleridge e Shakespeare e ainda com Dante Alighieri, depois de um capítulo curioso sobre o otimismo e o pessimismo e, Leibniz e Voltaire, com uma abordagem muito particular. Borges passeia por Charles Dickens, William Morris e Oscar Wilde, antes de concluir com Stevenson.A poesia anglo-saxônica ocupa parte importante do curso, considerada por Borges como uma espécie de câmara secreta nas origens dessa literatura, que o fascina particularmente e que classifica como "um ouro subterrâneo que guarda a serpente do mito". A esse fascínio se soma o encanto pelo idioma inglês, que ele propõe aos alunos estudar as origens, como forma de decifrar tantos mistérios dessa literatura.Na conclusão do curso, Borges retoma seu critério hedonístico e aconselha: "Creio que a frase "leitura obrigatória" é um contra-senso; a leitura não deve ser obrigatória. Devemos falar de prazer obrigatório? Por que? O prazer não é obrigatório, o prazer é algo buscado. Felicidade obrigatória! A felicidade também é buscada." "Se há um livro tedioso para vocês, não o leiam; esse livro não foi escrito para vocês. A leitura deve ser uma das formas da felicidade, de forma que eu aconselho a esses possíveis leitores do meu testamento - que não penso escrever -, eu lhes aconselharia que leiam muito, que não se deixem assustar com a reputação dos autores, que sigam buscando uma felicidade pessoal, um gozo pessoal. É a única forma de ler."Sendo assim, é difícil imaginar alguém que tenha feito da leitura objeto de maior prazer do que Borges, questionando sua frase de efeito: "Cometi o pior dos pecados: não fui feliz." Ninguém pode ter tirado da leitura mais felicidade do que Borges.Borges Professor, Ed. Emecê, Buenos Aires, 394 págs, R$ 55. Sob encomenda na Letraviva (SP), R$ 55, tel.: 011 - 3088 7992

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