Como andar nas pedras

As casas e os sobrados antigos de Paraty muitas vezes são fachadas para belos interiores modernos. Você literalmente pula de século quando entra por uma das suas portas. O mesmo não acontece com as ruas da zona histórica, que continuam como eram nos séculos 18 e 19, calçadas com pedras irregulares de vários tamanhos que obrigam o pedestre a andar com muito cuidado. É perigoso pisar desatento no passado, ainda mais depois de uma certa idade.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2012 | 03h08

Quem já foi várias vezes à magnífica Festa Literária Internacional de Paraty acaba desenvolvendo o que se pode chamar de uma ciência de andar nas pedras. Nas minhas primeiras idas à Flip eu precisava escolher entre olhar para o chão e cuidar onde pisava e olhar ao redor para ver quem passava perto, geralmente um grande nome da literatura mundial que também dava mais atenção a não torcer o tornozelo do que a qualquer contato social. Com o tempo, desenvolvi uma técnica para fazer as duas coisas simultaneamente: não cair e não perder a rica procissão humana à minha volta. Piso em uma, duas e três pedras, paro e olho em volta. Uma, duas, três pedras e "Olha o Ian McEwan!". Umas, duas, três pedras e "Olha o Stephen Greenblatt!".

Também descobri uma coisa que os neófitos em Flip e os turistas não conhecem: as capistranas. O calçamento das ruas do centro histórico foi feito na forma de calha rasa, sendo a parte mais baixa o eixo central da rua. Neste foram usadas pedras mais compridas e uniformes e mais alinhadas do que as outras. São as capistranas, que formam uma espécie de trilha à prova de tropeções. Pelo menos para nós, os iniciados.

E não deixa de haver uma certa justeza poética no fato de alguns dos maiores escritores do mundo terem que andar de pedra em pedra, escolhendo as mais aparentemente firmes e seguras e evitando as mais traiçoeiras. De certa maneira, é o que eles fazem quando escrevem. Vão escolhendo as palavras certas para chegar onde querem, evitando a queda e o vexame público. Paraty, para quem anda pelas suas ruas, também é um exercício de estilo.

E, no fim, todas as pedras levavam à tenda das mesas dos escritores, onde os prazeres deste ano se repetiam, como o de ouvir o Zuenir ler um trecho do seu novo livro Sagrada Família e ver Shakespeare e Drummond dividirem as honras de poetas da festa.

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