Imagem Ruth Manus
Colunista
Ruth Manus
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Comida (realmente) portuguesa

É bom que haja essa parcela de pratos mal assombrados. Pelo menos com elas eu não engordo

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2017 | 02h00

Antes de vir morar em Lisboa, meu conhecimento acerca da cozinha portuguesa era razoavelmente limitado. Pensava basicamente em bacalhau, azeitona, alheira, doces de ovos, num belo azeite e no vinho. Mas quando cheguei aqui, de fato, descobri um mundo novo.

Mas não, este não é um texto sobre as inúmeras delícias portuguesas para abrir seu paladar neste domingo. Não venho falar sobre saborosos pratos que semiconhecemos, como arroz de pato, arroz de polvo, bacalhau com natas, polvo a lagareiro, pastéis de Tentúgal, travesseiros de sintra ou arroz malandrinho. Venho falar de coisas que me chocaram- e ainda me chocam muito - acerca da culinária portuguesa.

Primeiramente, devemos esclarecer algo a respeito das porções portuguesas. O conceito de porção individual em Portugal é mais ou menos equivalente ao nosso conceito de cesta básica. Trata-se de algo realmente inexplicável. Outro dia, resolvi fazer um lanchinho no fim da tarde, então pedi uma tosta de frango, imaginando algo do tamanho de um pão de forma. Pois bem. Vieram seis (SEIS) pedaços de sanduíche, cada um deles do tamanho de uma banana, acompanhados de cerca de meio quilo de batatas fritas. Aquilo poderia facilmente ser três almoços meus.

Depois, entra uma outra temática interessante que é o fato de acharem que, por você ser brasileira, você gosta de todo tipo de carne de qualquer espécie de animal, afinal, Brasil é carne, churrasco e fartura (pelo menos na visão dos europeus). Esperam que você saiba apreciar todo e qualquer tipo de cadáver: cabrito, coelho, perdiz, enguia... E ninguém imagina que você possa se incomodar com algumas das coisas que passo a narrar.

Os caracóis são um capítulo à parte. Sempre ouvi falar, com algum nojo, sobre escargot. Mas nunca, nunca imaginei que alguém comia aqueles caramujos que aparecem nos nossos muros depois de dias de chuva. Quando o garçom trouxe aquilo para a mesa e meu marido (que é português) começou a segurar a conchinha, puxando a lesma com os dentes eu quase entrei num avião da TAP e voltei para casa.

Também é preciso falar sobre arroz de lampreia. Eu nunca havia ouvido falar em lampreia, mas, basicamente, trata-se de uma daquelas cobras aquáticas (que, na verdade, são peixes), mas que têm uma boca parecida com um cano de obra cheio de camadas assustadoras de dentes. O prato é lindo, fatias de cobra boiando num arroz feito com seu sangue. Filipe insistia para que eu experimentasse: oh pá, é tão bom!

Enquanto escrevia esse texto, tentava me lembrar de um outro prato estranhíssimo, cujo nome me fugiu. Virei-me para uns amigos portugueses do escritório e perguntei “Como chama aquela coisa do mar que vocês comem que parece um dedo verde com uma unha estragada?”, eles prontamente responderam: percebes. Não sei o que dizer sobre os percebes. A descrição fala por si.

Na mesma linha, temos o lingueirão. Trata-se de um molusco molenga meio bege, que mora dentro de uma coisa parecida com um pau de canela, mas que fica caindo para fora nas extremidades, como minitestículos. É uma cena bem incômoda, coroada por uma forma de comer parecida com a dos caracóis, na qual é preciso arrancar aquele bicho flácido da própria casa, utilizando os dentes.

Pescadinha de rabo na boca é algo que também já me assustou. Arroz de cabidela também é bem difícil. Tripas à moda do Porto. E também tem o lance de muita gente comer cabrito ou leitão em feriados religiosos. Gente, são bebês. Miniporco e minicabra/minibode. Tá na cara que Jesus não ia achar graça nisso. Sei lá.

Enfim, eu sigo amando Portugal e sigo lutando contra a balança, porque o azeite, o vinho e a gema nossa de cada dia seguem assombrando meus quadris. No fundo, é até bom que haja essa generosa parcela de comidas mal assombradas. Pelo menos com elas eu não engordo.

Mais conteúdo sobre:
Ruth Manus

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.