Werther Santana
Werther Santana

Comida e afeto: como a gastronomia está aproximando pais e filhos

Isolados em meio à pandemia, adultos e crianças descobrem, através da cozinha, que é possível resgatar laços familiares

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2020 | 05h00

Com certeza você já sentiu o cheiro de algum bolo, de milho, por exemplo, e se lembrou da infância com a sua avó. Ou provou o macarrão e se recordou do almoço de domingo. Aromas e sabores são capazes de despertar emoções e memórias afetivas. É através da comida que muitas famílias, em tempos de pandemia, estão buscando se reaproximar. E foi assim na casa da Karina Gentile e da filha Clara, de 13 anos, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. “Com a pandemia, ela faz bastante as coisas, lava a louça e até aprendeu a fazer a arroz. Esses dias a gente enrolou nhoque juntas. A pandemia tem essa coisa do participar. E a criança participar é mais do que efetivamente cozinhar. É ela começar a se familiarizar com essa linguagem da culinária e da cozinha para que ela tenha autonomia”, afirma a designer que largou tudo para montar o próprio negócio em gastronomia.

No fim de semana, de folga do trabalho e da escola, Karina, o marido e Clara também se encontram na cozinha. “Como a culinária faz parte do viver em família, acho que ela nos aproxima na pandemia, porque estamos mais juntos o dia inteiro. No sábado e no domingo, Clara não tem aula e meu marido não está trabalhando. A gente abre um vinho, ela coloca o suco dela na taça também, a gente brinda. Tem essa curtição sempre envolta da comida. A culinária é um ponto central da nossa casa e da nossa família”, conclui.  

Em Santos, no litoral paulista, a família de Mariana Gauche Motta e Rodrigo Rubido Alonso também se reaproximou na pandemia. O casal de arquitetos tem Laura, de 12 anos, Luiza, 10, e Martín, 3. “A convivência com as crianças tem sido uma das melhores partes desse tempo de isolamento. Ainda que exista uma demanda maior, muitas vezes é difícil conciliar trabalho e atenção às crianças. Por outro lado, também começamos a contar muito mais com elas nas tarefas da casa. Acho que a principal mudança foi um aumento no senso de responsabilidade compartilhada e com isso todo um espírito de companheirismo”, afirma Rodrigo.

Ele e a esposa são descendentes de espanhóis, portugueses e italianos, e a cozinha sempre fez parte da família. “Nossas avós sempre cozinharam muito e meu pai também sempre foi o cozinheiro dos fins de semana e das festas de família. Mas na minha infância não tive muitas oportunidades de cozinhar. Era uma infância diferente, não nos davam o espaço e atenção que hoje damos às crianças. Mas eu sempre estava ao redor, lembro muito de comer massa crua de bolos e pães que minha avó fazia”, relembra.

Com os filhos, Rodrigo prepara os pratos durante a pandemia em casa. “As mais velhas especialmente nos fins de semana, quando fazemos panquecas no estilo americano para o café da manhã. Todo mundo quer participar. Mas o companheiro mais fiel é o caçula que chega a largar a TV voluntariamente para se juntar a preparação de qualquer refeição. Acabei transformando uma caixa de papelão em um banquinho para que ele pudesse alcançar a bancada da pia. Ele quer descascar e cortar legumes e frutas, inclusive já manipula com certa destreza uma faca de fio. Tive muita resistência, mas a persistência dele foi maior, acabei cedendo, mas sempre acompanho de perto. O fogo ele respeita muito e não se aproxima. Mas adora os cheiros! Em cada panela no fogo, ele comenta do cheiro. Agora a grande festa familiar são as massas caseiras, algo que há muito tempo não fazíamos, mas que a quarentena trouxe de volta. A aventura da quarentena foi preparar raviolis. É trabalho e diversão garantida para toda a família”, concluiu.

A neuropsicóloga Edyleine Bellini Peroni Benczik avalia que o contato das crianças com os alimentos pode fazê-las entrar no mundo das sensações e um momento único da promoção da alquimia alimentar. “A aproximação e a convivência com os pais trazem o compartilhamento de atitudes e das emoções, o desenvolvimento do senso de equipe, o resgate da autoestima, de se sentir importante. O preparo do alimento e o contato com os ingredientes também desenvolvem habilidades das funções executivas do nosso cérebro, tais como a capacidade de planejamento, de organização, de flexibilidade mental, a motivação e a persistência do esforço até a finalização do objetivo, atenção, memória e o autocontrole”, diz.

Em isolamento social, sair para almoçar ou jantar em restaurantes é algo impensável para a família de Mariana e Rodrigo. E isso fez com que o casal e os três filhos ficassem mais unidos. “Como todo mundo gosta de comer aqui, isso trouxe uma espécie de sentimento de admiração mútua e gratidão na família. Como não vamos mais a restaurantes, começamos a nos aventurar em receitas árabes, japonesas e a satisfação de conseguir reproduzir um sabor de restaurante em casa tem sempre um sabor de conquista e é uma celebração da união da família em superar um desafio junto”, conta Rodrigo.

Para Edyleine Bellini Peroni Benczik, doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP, a manipulação dos ingredientes faz com que a criança adquira conhecimento. “O contato com os ingredientes pode promover uma viagem cultural, onde tomam conhecimento da procedência do alimento, do país, e de como cada cultura o utiliza, bem como as diferenças regionais denominam determinados ingredientes. A relação com o alimento pode se tornar um momento de crescimento e de desenvolvimento para todos os membros da família”, ressalta.

A psicóloga Ana Beatriz Chamati, especialista em infância e adolescência, explica que o ato de cozinhar envolve um processo que desenvolve várias habilidades socioemocionais importantes, além de ser um gesto de afeto e carinho. “Como escutamos com frequência ‘nada melhor do que comida de mãe’, eu diria que essa frase fala sobre qualquer alimento que seja feito com amor tem outro sabor. Assim, ao cozinhar, pais e filhos passam tempo juntos, dividem tarefas, se arriscam, experienciam paciência, planejamento. É algo extremamente importante que vai contra o que a mídia eletrônica e a cultura valorizam do consumo pronto e rápido das informações e produtos”, enfatiza.

A culinária também sempre fez parte da relação entre Patrícia Lopes, nascida em Barretos, e da filha Helena, de 11 anos de idade. Atualmente, a assessora de Comunicação mora em São Paulo com a pequena e, apesar de ambas cozinharem juntas desde sempre, a correria do dia a dia separava mãe e filha. “Aqui na capital, a vida sempre foi muito louca. Quando ela era bebê, eu já cozinhava com ela sentada no cadeirão. Quando ela cresceu mais um pouco, era esse o tempo que tínhamos para ficar juntas. Então, usávamos para fazer almoços, piquenique, muito bolo. Mas tudo isso tem raízes na relação com minha mãe. Que cozinha muito e sempre manteve a família reunida na cozinha”, recorda.

Depois que as aulas de Helena foram suspensas por causa da pandemia, a filha de Patrícia foi para a casa dos avós, no interior. E a relação de afeto com a culinária na família se manteve. “Helena foi para a casa dos meus pais em Barretos, o que só aumentou a interação dela com a comida. Domingo mesmo ela estava fazendo petit gateau para família”, conta a mãe, toda orgulhosa.

A psicóloga Ana Beatriz Chamati afirma que a gastronomia tem papel importante nas relações interpessoais, sobretudo familiares. Ao mesmo tempo, contribui para o desenvolvimento infantil. “O contato com a comida desenvolve os sentidos. Muitas crianças crescem sem tocar alguns alimentos, bem como chegam na adolescência sem reconhecer algumas frutas e legumes, pois não têm contato direto com esses alimentos e consomem alimentos industrializados que vêm em pacotes e latas”, conclui.

Família, gastronomia e literatura

O isolamento social imposto pelo novo coronavírus fez muita gente repensar as relações familiares, sobretudo entre pais e filhos. E o livro Childfood – Receitas para Jovens Coolinary Explorers reúne chefs renomados de todo o mundo, que elaboraram 23 receitas para incentivar as crianças a compartilharem momentos inesquecíveis na cozinha com os adultos. “Todo mundo, mas principalmente as crianças, cresce quando tenta fazer algo diferente. Preparar pratos ajuda a aumentar a atenção aos detalhes, a melhorar a autoestima e a ter momentos de diversão com os pais, irmãos mais velhos ou responsáveis. É muito importante que os pais/responsáveis passem um tempo de qualidade com os filhos, porque os filhos nunca esquecerão esses momentos, nem os pais. Criar na cozinha é uma atividade incrível, então o que é melhor do que cozinhar e compartilhar uma refeição juntos?”, afirma o jornalista italiano Luca Scarcella, autor da obra, em entrevista ao Estadão.

ntes de se tornar jornalista, Lucas Scarcella, de 31 anos, se formou em piano no Conservatório de Turim, na Itália. “Então, aos 22, durante a universidade, comecei a trabalhar como jornalista, usando minhas habilidades e conhecimentos musicais também nesta área. Todo projeto, investigação ou documentário que eu crio é baseado em teoria musical, com melodia, harmonia e ritmo. Por exemplo, você pode encontrar a melodia no Childfood nas receitas. A harmonia é a combinação de histórias e ilustrações. E o ritmo é a parte dos desenhos e das páginas em que as crianças podem liberar sua criatividade”, declara. Ele se mudou para Los Angeles, nos Estados Unidos, no ano passado. “Um dos meus objetivos de vida é abrir um restaurante em Lisboa quando eu for um avô simpático”, brinca. Scarcella sempre teve uma relação de afeto com a gastronomia: “Como italiano, adoro comida. Principalmente adoro compartilhar uma refeição com amigos, cozinhar para eles. Boa comida e boa companhia fazem todos nós felizes”, diz.

Scarcella conseguiu reunir 23 chefs, os chamados ‘Coolinary Explorers’, para estimular as crianças na cozinha. A lista conta com três brasileiro: Bel Coelho, Jefferson Rueda e Guga Rocha. Chefs retratados pela série Chef’s Table, da Netflix, também estão no livro, como o italiano Massimo Bottura, o argentino Francis Mallmann, o peruano Virgilio Martinez, o indiano Gaggan Anand, o russo Vladimir Mukhin, além do colombiano Juan Manuel Barrientos e do espanhol, Andoni Luis Aduriz. As crianças podem conhecer a longa jornada que os ingredientes fizeram ao longo da história, como os astecas, além de apreciar desenhos feitos por 23 ilustradores diferentes, um para cada receita.

Uma das propostas de Childfood – Receitas para Jovens Coolinary Explorers é promover a diversidade. “Pensando em atingir uma grande quantidade de pessoas, decidi incluir os melhores chefs do mundo, transmitindo a mensagem de que a comida pode ser uma boa chance de construir pontes e derrubar muros, contra o racismo, a ignorância e a intolerância”, relata o autor.

Além disso, a venda do livro, disponível exclusivamente na plataforma Kickstarter, apoiará os projetos internacionais Charity: Water e Share The Meal, do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas. “Desde o início, eu queria envolver uma grande organização sem fins lucrativos - e o primeiro nome da minha lista foi a Charity: Water porque, sem o acesso à água potável, tudo se torna impossível, literalmente tudo, inclusive viver. Todos os anos, mais de um milhão de crianças morrem por causa da falta de água, mais do que por causa de todas as guerras e doenças combinadas. Com o livro, tentaremos levar água limpa para comunidades carentes. A cada cinco livros vendidos, a Charity: Water trará água limpa para uma criança necessitada. Além disso, podemos contar com o apoio do Share The Meal, do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas: dentro do livro, será possível encontrar um QR Code para se juntar ao nosso time no aplicativo Share The Meal. Por meio dele, será possível doar US$ 0,50, exatamente o que é necessário para alimentar uma criança faminta por um dia inteiro”, afirma o autor Lucas Scarcella.

O livro  Childfood – Receitas para Jovens Coolinary Explorers é composto por quatro partes. A primeira é dedicada a conhecer os chefs e os ingredientes de cada receita – e traz uma foto do resultado final do prato. A segunda conta a história da receita. As crianças aprenderão sobre a origem dos ingredientes. Na terceira parte, algumas páginas estão disponíveis para colorir ou incrementar desenhos. Por fim, o leitor pode contar as próprias histórias e criar (ou desenhar) a versão das receitas.

O livro está disponível para venda apenas na plataforma Kickstarter, por US$ 35.

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