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Fábio Porchat
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Comer, comer...

Até os 10 anos de idade eu era magro. Magro de ruim. De encolher a barriga e mostrar os ossos com requintes de crueldade. E sempre comia muito. Eu era a lixeira da casa. O que sobrava no prato da família tinha endereço certo: o saco sem fundos, meu estômago. Eu era feliz!

FÁBIO PORCHAT, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2013 | 02h16

E aí, o sonho ruiu.

De etíope, virei um americano e minhas proporções aumentaram sem controle. E desde então, eu tenho que controlar a minha alimentação. Puxei a família da minha mãe, olha que alegria, que tem o metabolismo "lente de aumento". Sabe qual é? É aquele que você come uma empada, mas o corpo computa na sua barriga um pavê de leite condensado com chantilly e Nutella.

Por que não puxei meu pai? Ele descende daquela raça maldita de pessoas que come um Diamante Negro inteiro de lanche e parece que só tomaram um copo de água. Sem gelo. Eu já fiz todos os tipos de dieta. Já comi só sopa, já comi só proteína, já não comi... Não adianta, eu emagreço e depois engordo. Claro. Por conta dessa eterna preocupação alimentícia, eu entendo, leigamente, tudo de comida! Sei calorias, o que faz bem, o que faz mal, o que pode comer com o que, o que não comer em certas ocasiões.

Perceba, saber disso não significa que eu me utilizo dessas informações em benefício próprio.

Mas tudo isso pra dizer: como é difícil comer hoje em dia. Tudo faz mal. Tudo. Tomate é ruim pro rim, damasco broxa, leite é ruim pra digestão e pro rim, pimentão é a coisa que tem mais agrotóxico no mundo ao lado dos morangos, glúten é o mal do século e tudo tem glúten, carne vermelha nunca é digerida e fica pra sempre no seu corpo, o frango tem hormônios que modificam completamente a nossa genética (segundo minha amiga Tati Bernardi, é por isso que todo americano hoje tem tetinha), o salmão é o frango do mar e é alaranjado artificialmente, o arroz não tem nenhum valor nutritivo, a água que bebemos tem tanta química pra ficar sem gosto, sem cheiro e sem cor que é imbebível, linguiça é feita com o que sobra da carne de segunda e os embutidos, por sua vez, são feitos com o que sobra da sobra da linguiça, não preciso falar de refrigerante e a quantidade de sódio que tem cada garrafa de 600...

Eu não vou nem entrar na seara de maus-tratos a animais e como eles são mortos e tratados durante o processo de extração de leite, ovo e afins. Pelo amor de Deus!

O que que eu posso comer pra não aumentar minha taxa de sódio, hormônio, triglicérides, açúcar, pra não me matar aos poucos? Alguém pode me dizer se alguma comida está livre de qualquer tipo de restrição?

Eu queria poder comer qualquer coisa. Só pra não morrer de fome mesmo. Bobagem minha, um detalhe. Não tá dando nem pra comer ar, com a poluição, a emissão de carbono. Tá puxado.

Minha vó Lourdes, um dia, falou o que eu achei definitivo. Ela estava descascando uma maçã e meu pai disse a ela que na casca é que estavam as vitaminas principais. Ela parou um segundo, pensou, continuou cortando a casca e falou: "Na minha época não estavam não".

Saudades daquele tempo em que gordura transgênica era boato, teoria da conspiração. Saudades de comer o que eu quiser sem compromisso com a minha pança. Mas principalmente, saudades da minha avó!

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