Comédie-Française encena Molière à beira da morte

Quando escreveu As Artimanhas de Escapino, Molière tinha quase 50 anos. Morreu pouco depois. A peça não teve reconhecimento logo que estreou: 18 apresentações foram tudo o que Molière conseguiu, encarnando o personagem principal, o criado Escapino. Antigos companheiros de teatro se afastaram do autor em razão desta peça, percebendo uma volta ao estilo farsesco que condenavam e que o próprio Molière havia abandonado mais de 15 anos antes.Em 1680, data de fundação da Comédie- Française pelo rei Luís XIV, a peça é imediatamente incluída no repertório da companhia, que já nascia prestando homenagens a Molière. Com 320 anos de existência, a Comédie-Française vem novamente ao Brasil, para fazer quatro apresentações de As Artimanhas de Escapino, duas no Rio, duas em São Paulo. A tradição e a seriedade da companhia são comentadas pelo ator Bruno Raffaelli, que representa Sylvestre, em entrevista concedida ao Estadao.com.br.A companhia vai se apresentar no teatro Municipal do Rio nos dias 24 e 25 deste mês. Em São Paulo, no Teatro Alfa, eles representarão nos dias 29 e 30. Escapino é uma comédia. Porém, não é uma peça sobre a qual devam recair expectativas de riso fácil. Como fundador do teatro de costumes, Molière se preocupava em não provocar a gargalhada vazia, e sim através do riso remeter a platéia aos erros e gafes da nobreza de sua época. Escapino é o esperto criado do jovem Léandre. Este e seu amigo Octave, sabendo que seus pais estão em viagem, decidem se casar com duas mulheres que os pais não aprovam. Escapino, depois de, sem querer, deixar o segredo de Léandre chegar ao pai, vê-se obrigado a reparar o mal que fez a seu amigo, para o que lança mão das artimanhas do título. Há surpresas e reviravoltas no desenrolar da história. Todas elas enfocando o quão senhor das situações pode ser um criado, mesmo parecendo não saber do que se passa a seu redor. Desde 1680, a Comédie-Française montou As Artimanhas de Escapino 1491 vezes.Casa de Molière é um nome informal para a Comédie- Française, reconhecida mundialmente como uma companhia de teatro clássico. Seus três pilares dramatúrgicos são, além do autor de Escapino, Coneille e Racine. Na verdade, este tributo a Molière vem da fundação da companhia por um motivo prático, além da justa homenagem: a Comédie-Française é resultado da fusão do grupo de atores liderados por ele e da companhia do Hotel de Bourgogne. Inicialmente chamada de Comédiens du Roy, a trupe está vinculada ao estado francês, antes como parte da corte, hoje como patrimônio e empresa do governo. São 65 atores que encenam 20 peças por ano, nas três salas que têm em Paris e ao redor do mundo, em turnês como esta que agora chega ao Brasil depois de ter passado por Buenos Aires e cidades da Europa. Ela é a única companhia de teatro do mundo cujos atores são sócios: têm poder de voto em assembléias semestrais e dividem os lucros obtidos. A estrutura de trabalho ainda conta com 400 técnicos, entre cenógrafos, maquiadores, figurinistas e outras categorias profissionais.O repertório da Comédie tem mais de 3 mil peças. E não somente de clássicos são feitas as temporadas. Ao longo dos anos, incorporaram-se autores contemporâneos como Samuel Beckett, Jean-Paul Sartre e Rainer-Maria Rilke à lista. O peso da tradição, um extenso repertório e perfeitas condições de trabalho garantidas por gordas subvenções do governo francês talvez expliquem a constância do público da Comédie-Française. Estima-se que nenhuma criança francesa chegue à adolescência sem tê-la visto ao menos uma vez. As três salas de Paris são lotadas com freqüência e o público não pode ser definido por faixa etária ou classe social, pois gente de todo tipo vai conferir os espetáculos. Trata-se, como se percebe ao conversar com mais de um francês residente no Brasil, de um orgulho nacional.Uma polêmica sempre perseguiu As Artimanhas de Escapino. Afinal, o texto é ou não farsesco, como queriam os companheiros de Molière que o recriminaram? A influência da commedia dell´arte italiana, gênero de teatro em que as gags são evidentes e produzem uma aproximação inocente do público com os atores, é identificada por alguns como marcante em Escapino. O diretor Jean-Louis Benoit discorda. Acha que a peça é para ser levada a sério, e vê marcas até mesmo de selvageria no comportamento dos personagens, o que faria de Escapino uma crítica tão mordaz quanto oculta. Benoit define que a humanidade dos personagens reforça o lado cômico, mas sem tornar a peça "saltitante e de fácil digestão".

Agencia Estado,

22 de setembro de 2000 | 18h45

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