Caroline Tompkins/The New York Times
Caroline Tompkins/The New York Times

Comediante Steve Martin e ilustrador Harry Bliss lançam quadrinhos humorísticos

HQs variam em estilo e tom, desde quadrinhos absurdos, bobos, extravagantes, com animais falantes e alienígenas entediados, a outros mais meta filosóficos sobre o processo de criação e a natureza subjetiva e efêmera da comédia

Alexandra Alter, The New York Times

18 de novembro de 2020 | 05h00

Em geral, à noite, na hora das bruxas, entre 2h e 4h da madrugada, Steve Martin está acordado, com os pensamentos rodando em sua cabeça. Deitado na cama, ele imagina cenas absurdas: uma família de vacas sentada ao redor de uma mesa com o jantar; um pato com um rifle, a ideia de um script para um Tarzan diluído na televisão. Ele anota tudo no seu iPhone e transforma as melhores ideias em quadrinhos.

Martin – o comediante, roteirista, produtor, vencedor de um Grammy de melhor performance no banjo com uma fusão de música country, blues e jazz – é um dos astros mais polivalentes do mundo do entretenimento. 

Já escreveu ensaios, um livro de memórias, romances, peças, roteiros, monólogos para stand-up, canções, sketches humorísticos e contos de ficção. Mas os desenhos animados, que ele chama de última fronteira da “comédia”, foram alguns dos poucos veículos em que não conseguiu se firmar, em parte porque não tem uma habilidade essencial neste campo. “Não sei desenhar”, ele disse. “Sou um dos poucos artistas para quem o papel passa a valer menos quando eu desenho nele.” 

Como aspirante a cartunista sem nenhuma habilidade artística, Martin estava em uma situação difícil. Por isso, no ano passado, contatou o ilustrador e cartunista Harry Bliss e perguntou se gostaria de trabalhar com ele. Bliss se interessou. Nos seis meses seguintes, eles criaram cerca de 200 quadrinhos, muitos dos quais aparecem em sua nova coleção, A Wealth of Pigeons, que a Celadon Books lança esta semana nos Estados Unidos.

Os desenhos variam em estilo e tom, desde quadrinhos absurdos, bobos, extravagantes, com animais falantes e alienígenas entediados, a outros mais meta filosóficos sobre o processo de criação e a natureza subjetiva e efêmera da comédia.

Um dos quadrinhos mostra um astronauta plantando uma bandeira em Marte, pensando: “Só espero que isto não me defina”. Outro mostra uma mulher brigando com suas malas ao sair pela porta da frente, enquanto um monstro do pântano olha para ela entristecido e pergunta: “É o lodo?”. Em outro, duas toupeiras observam uma montanha a distância e uma diz: “Começou como um grão de areia, mas depois eu continuei”.

As restrições do veículo atraíam Martin. “O que mais me agrada nas bands é que elas são rigorosas e claras”, respondeu. “Funciona ou não”.

Durante uma entrevista conjunta em vídeo, Martin e Bliss falaram de sua colaboração e do fato de que um explorava as ideias do outro.

“A sensação do sucesso é realmente interessante quando você pousa sobre ele”, disse Martin. “É quase como, não sei como descrevê-lo, é uma ideia estimulante e você pensa: É isso, é uma ideia”. “É o momento do ‘Eureka’”, sugeriu Bliss. “É isso, também acho”, disse Martin, parecendo cético. “Só que é menos do que isto. Eles acharam ouro.”

Às vezes, Martin envia para Bliss a descrição de uma imagem com uma legenda que ele tem em mente. E eles fazem uma oficina por e-mail.

“Museu de arte: mãe e filho olham um quadro. Mãe: ‘Meu filho poderia fazer isto’. A criança é um pequeno Picasso de avental, com uma paleta na mão.” Martin escreveu para Bliss, este ano. “Inúmeras variáveis cabem aqui. Eles poderiam estar olhando um Rembrandt e a criança ser um pequeno Rembrandt, ou olhando uma tela abstrata e a criança, um pequeno Pollock.”

Bliss embarcou logo na ideia. “Não seria engraçado, com uma mãe nova-iorquina toda elegante, dizendo isto a uma amiga adulta (à sua esquerda), enquanto está segurando a mão de um pequeno Jackson Pollock careca com sua camiseta de grife e um cigarro?”, respondeu. “ADORO o cigarro”, retrucou Martin.

Outras vezes, Bliss mandou a Martin uma imagem que precisava de uma legenda. 

Ocasionalmente, quando Bliss não consegue visualizar exatamente o que Martin tem em mente, pede que ele faça um esboço. Certa vez, Martin teve uma ideia para um desenho que ridiculariza o mito de Sísifo. Bliss não conseguiu desenhá-lo. Então Martin mandou para ele algumas figuras de palitos, com dizeres do tipo: “Nome Real Manny”.

Dinâmica de casal. Como colaboradores, Martin e Bliss têm uma espécie de dinâmica de casal estranho. “Ele é um garoto do interior, eu sou um da cidade”, disse Martin. 

Bliss, 56 anos, que publica seus desenhos e ilustrações da revista The New Yorker e charges que aparecem nos jornais, é um amante da natureza que mora em Cornish, no Estado deNew Hampshire (na casa onde viveu o escritor J.D. Salinger; 1919-2010). No Instagram, Bliss posta imagens de aves e árvores e vídeos de si mesmo cortando lenha e preparando microdoses de LSD, juntamente com imagens curtas do seu trabalho atual.

Martin, de 75 anos, é mais conhecido por seus papéis cômicos em filmes como O Pai da Noiva e O Panaca, e para seu stand-up e sketches de comédia. É também amante da arte e da literatura que se desviou de sua carreira ao tornar-se autor de livros, como o de suas memórias, Born Standing Up, sua novela Shopgirl e seus romances An Object of Beauty e The Pleasure of My Company.

“Você pode perceber como é respeitosa a colaboração. Não se trata de Harry desenhando as ideias de Steve, ou Steve escrevendo legendas para as caricaturas de Harry”, disse Françoise Mouly, a editora de arte da The New Yorker, que ajudou a pôr Martin em contato com Bliss. “Trata-se de dois sujeitos que tentam rir um do outro.”

Para Bliss, que costuma trabalhar sozinho, de início, colaborar com um comediante famoso foi uma perspectiva assustadora. Mas Martin o colocou à vontade assegurando-o de que desencorajaria a lógica da comédia do veículo. 

“Uma das coisas que Steve escreve para mim no começo, foi que ele não tinha ego para render-se e servir aos quadrinhos”, disse Bliss posteriormente, em uma entrevista por telefone. “Dizer: ‘Não, isto não funciona’ a Steve Martin é difícil para a minha mente aceitar. Não que não seja engraçado na maioria dos casos, ocorre que a sua ideia não se traduz na forma.”

A Wealth of Pigeons inclui algumas tiras de referência que mostram Bliss e Martin no trabalho. Em uma, eles discutem para decidir se um quadrinho é engraçado, e Bliss diz a Martin: “Você não é nenhum Charlie Chaplin” e Martin retruca: “E você não é nenhum Rembrandt”. Em outro, Martin apresenta sugestões que Bliss tranquilamente derruba alegando que não são originais. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Tudo o que sabemos sobre:
Steve Martinquadrinhos

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.