Comediante mobiliza 300 mil por 'parlamento limpo' na Itália

Beppe Grillo vai apresentar projeto de lei contra parlamentares condenados.

Assimina Vlahou, BBC

17 de setembro de 2007 | 07h20

Um abaixo-assinado lançado na Itália por um comediante, pedindo a expulsão de políticos condenados à Justiça do Parlamento, virou um fenômeno de mobilização popular no país e pode resultar em uma nova lei.Beppe Grillo, conhecido comediante e blogueiro especializado em sátiras políticas, recolheu 300 mil assinaturas em todo país para o seu projeto de lei popular, que defende um "parlamento limpo". O projeto prevê três pontos: impedir que políticos condenados na Justiça permaneçam no Parlamento, limitar a dois o número máximo de mandatos para cada deputado e senador e mudar a lei eleitoral, para permitir que as pessoas possam votem em nomes, e não em partidos (atualmente os candidatos são escolhidos pelos partidos e o eleitor vota no partido).A Constitução italiana permite que qualquer cidadão submeta projetos de lei ao Parlamento, desde que estes sejam endossados por um mínimo de 50 mil assinaturas.Mas até agora, nenhum projeto de lei popular teve o impacto do abaixo-assinado de Grillo, na avaliação do senador José Luis Del Royo, do Partido de Refundação Comunista, em entrevista à BBC Brasil."Trezentas mil assinaturas representam uma grande capacidade de mobilização e são um fato político, trata-se de uma iniciativa sem precedentes", comentou o senador.A próxima etapa agora é submeter o projeto à apreciação do Parlamento. Deputados e senadores decidirão se ele poderá ou não virar lei.O senador Del Royo concorda em parte com a proposta de Grillo, e acredita que alguns pontos devem ser mudados. "Eu vou votar a favor dos dois últimos itens, mas quanto à exclusão dos condenados na Justiça, acho que precisa ser mais claro. Em casos que envolvem corrupção e Máfia acho justo, mas há também os que são condenados por participação em movimentos sociais, como ocupaçao ilegal de casas populares. E nesse caso eu não concordo", avaliou o senador.O ministro para Infraestrutura e ex-magistrado Antonio Di Pietro, um dos símbolos da luta à corrupçao na Itália, também aderiu ao movimento e à proposta de lei popular. "Eu já apresentei diversas vezes um projeto de lei parecido mas até agora não teve sucesso. Então achei melhor me juntar a esta multidão de pessoas porque a união faz a força", disse Di Pietro.A campanha de Beppe Grillo por um "parlamento limpo" nasceu e ganhou adesões na internet, por meio do blog do humorista, que tornou-se um dos sites mais visitados e polêmicos da Italia. Na avaliação da parlamentar Rosy Bindi, Beppe Grillo soube representar muito bem a visão atual dos italianos, que criticam cada vez mais os privilégios dos políticos."As pessoas sempre perguntam por que não conseguem chegar até o fim do mês com o próprio salário, enquanto os políticos continuam enriquecendo. Ou cortamos gastos e privilégios ou a democracia corre perigo", avaliou a parlamentar.Mas o senador José Luis Del Royo acredita que Grillo é contra todos os partidos e parece ter a intenção "de passar da sátira para a política de forma antipolítica e isto é perigoso". O comediante garantiu que não tem a menor intenção de entrar para a política, pelo menos na forma tradicional. "Os partidos políticos são um câncer para a democracia", definiu Beppe Grillo.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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