Comédia satiriza linguagem teatral

Uma turma de jovens atores que promete dar o que falar. Uma Peça por Outra, comédia de Jean Tardieu, com estréia prevista para esta terça-feira no Centro Cultural São Paulo, deveria ser apenas mais uma montagem entre as muitas que os alunos do Teatro-Escola Célia Helena realizam durante os três anos de duração do curso de formação de atores. Até por fazer parte do objetivo - formação - , esses espetáculos costumam ser muito mais proveitosos para os atores/alunos do que para o público. Entretanto, sob direção de Marcelo Lazzaratto, com 12 atores no elenco, a montagem da comédia de Jean Tardieu resultou acima do esperado. Chamou a atenção de profissionais ainda na escola e agora inicia temporada na sala Jardel Filho do CCSP."Essa é uma moçada muito especial, com muito fogo e talento criativo", afirma Lazzaratto. Ele foi o responsável pela escolha do texto - a mesma tradução utilizada pelo Grupo Tapa, em cuja encenação ele próprio atuou -, estruturado em sete esquetes que brincam com a linguagem teatral. Com essa peça, o francês Tardieu (1905/1995) satiriza o caminho fácil dos clichês nos vários gêneros teatrais.O primeiro esquete - nessa montagem - ironiza a invasão de monólogos nos palcos. "É uma história de suspense, sobre um assassinato ocorrido numa noite de festa, contada por meio de monólogos", conta Lazaratto. "Os atores jamais se encontram, cada personagem faz sua cena sozinho, mas o público entende a história."Num outro esquete, o autor, filiado ao teatro do absurdo, critica os excessos da linguagem naturalista no palco. Assim, no texto Só Eles Sabem os atores interpretam personagens angustiados, todos sofrem horrivelmente, mas estão inteiramente voltados para eles mesmos. A chamada quarta parede é tão espessa que o público não consegue entender a história."É um esquete muito divertido; o grupo Tapa já havia puxado essa história para o melodrama", comenta Lazzarotto. Assim, os personagens ganharam nomes como Lauro Cesar (Muniz), Janete (Clair) e ainda Simone e Cristiano Vilhena, os personagens centrais da novela Selva de Pedra. "Na encenação do Tapa essa referência ao melodrama era mais sutil; nessa montagem nós forçamos a barra, pesamos a mão mesmo", avisa o diretor.Traduzido pelo poeta Manoel Bandeira, o esquete Uma Palavra por Outra gira em torno do triângulo amoroso entre um conde, uma condessa e seu amante. O texto é todo construído sobre troca de palavras por similares no som, não no significado. "Não tenho um só minueto livre", diz a condessa. "É um jogo de linguagem inteligente e tão bem traduzido por Bandeira que não só é possível acompanhar o diálogo, como isso propicia um imenso prazer."Há um outro esquete ainda que explora a inversão dos gestos, como sentar no chão com uma cadeira sobre o corpo. Laissez-Moi, que encerra o espetáculo, tem apenas dois personagens, que fazem um divertido contraponto entre razão e emoção. "É o mais beckettiano dos esquetes."Diretor formado pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), trazendo no currículo três prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (Apca), Lazzaratto dá valor ao papel da escola na formação de atores e diretores. "Não sei se a escola tem importância, quando se pensa somente em vínculo com o mercado", diz. "Mas uma escola séria, como é o caso da Célia Helena, estimula o auto-conhecimento e o contato com a literatura dramática", argumenta. "Cabe ao aluno tirar o melhor proveito disso."Uma Peça Por Outra - Comédia. De Jean Tardieu. Direção Marcelo Lazzaratto. Duração: 1h40. Terça a quinta, às 21h30. R$ 10,00. Centro Cultural São Paulo - Sala Jardel Filho. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3277-3611. Até 16/11.

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