Imagem Lúcia Guimarães
Colunista
Lúcia Guimarães
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Comédia e eleições

Imaginem se uma galeria de comediantes fizesse, toda semana, imitações impagáveis de Dilma, Lula, Renan Calheiros, Eduardo Cunha e, por que não, um sketch dentro de uma caverna, no período Paleolítico, estrelado por um Jair Bolsonaro imponente em sua indumentária de pele de tigre?

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2015 | 02h04

Quem acredita que uma dose maciça de intervenção cômica ajudaria a organizar nossa incredulidade diante do circo brasiliense? Ou, mais importante, que uma dose semanal de imitações dos candidatos a presidente de 2014 teria tido qualquer peso nas urnas?

Um dado a considerar: calculo que cerca de dois milhões de brasileiros acessaram no YouTube um vídeo de 16 de março, em que o comediante John Oliver, do canal de cabo HBO, faz um breve panelaço em solidariedade aos ruidosos indignados com a corrupção na Petrobrás. Graças a bons redatores e ao timing cômico, Oliver fez a pergunta óbvia, saudada com riso: como é possível presidir o Conselho de Administração da empresa no período das propinas e não saber de nada, nadinha? A gargalhada sublinha o absurdo da proposição.

Com a mais longa campanha presidencial de qualquer democracia afluente, os comediantes norte-americanos estão bastante ocupados. Temos doses diárias de sátira em talk shows e a nave-mãe da comédia política, o Saturday Night Live, que está comemorando seu quadragésimo ano de vida. Há, no elenco periodicamente renovado do programa, a ultratalentosa Kate McKinnon assumindo o lugar que foi de Amy Poehler em 2008: o da residente Hillary Clinton.

Assim como assistimos ao histórico quarteto Tina Fey/Sarah Palin, Amy Poehler/Hillary Clinton naquele ano que acabou dominado por Barack Obama, é altamente improvável que a Hillary 2.0 escape a um encontro no ar com a comediante que explora seus defeitos com nuance extraordinária.

O caminho da candidata está cheio de percalços plantados, não só pelos adversários republicanos, como por colegas de partido à sua esquerda, mas Hillary pode encontrar um alter ego nada lisonjeiro em Kate McKinnon. A imitação que Amy Poehler fazia de Hillary era quase afetuosa. Já a imitação da ex-candidata a vice-presidente Sarah Palin feita por Tina Fey ajudou a consolidar a persona ridícula e severamente despreparada para estar a um infarto de distância da presidência. Certamente não podemos comparar Hillary Clinton a Sarah Palin, a ex-governadora do Alasca.

O material precioso de um comediante não é necessariamente uma decisão desastrosa, como a de George W. Bush invadindo o Iraque. A evidente escassez de inteligência, o desconforto com a língua inglesa alimentaram incontáveis imitações que contribuíram para instalar Bush no panteão de homens públicos difíceis de levar a sério. O adversário de Bush na campanha de 2000, o então vice-presidente Al Gore, foi obrigado por seus marqueteiros a assistir, antes de debates, a inúmeros sketches do comediante Darrell Hammond, que o imitava impiedosamente no Saturday Night Live. Os assessores de Gore temiam que ele continuasse confirmando a fama de pomposo e que a zombaria atravessasse a mensagem política.

De todos os comediantes que cito aqui, Kate McKinnon me parece a mais perigosa. Há um certo abandono com que ela se lança sobre figuras públicas e, quem duvida, deve procurar no YouTube sua personificação de Justin Bieber. É muito fácil zombar da insuportável estrela pop canadense mas não há, a meu ver, uma crítica em palavras que exponha Justin Bieber de maneira tão letal como dois minutos de um sketch de McKinnon.

Suponho que os 'Joões Santanas' de Hillary já devem pensar na primavera de 2016 quando, salvo um terremoto como o azarão Obama em 2008, ela estiver surfando em direção à convenção democrata de julho em Filadélfia e outros candidatos já tiverem se submetido em carne e osso às palmadas cômicas do Saturday Night Live.

Mesmo antes do anúncio oficial da candidatura no domingo, 12 de abril, McKinnon já dissecava a personalidade pública desta que é talvez a mulher mais famosa do mundo. Num programa de março, Kate/Hillary aparece na suposta sala de estar de sua casa em Chappaqua, num sofá com estampado que poderia ser facilmente descrito como "bipartidário classe média". "Estou aqui não como Secretária de Estado, senadora ou primeira dama", diz ela. "Falo a vocês como uma mulher 'relacionável' sentada num sofá."

Ai! O contraponto da profissional hiperqualificada com a política insincera e distante é potente. E também triste. No superpopuloso campo republicano, que pode passar de doze candidatos, não vemos a cobrança de calor humano, penteado ou personalidade unidimensional.

A personificação mordaz da Kate McKinnon sublinha um obstáculo que pode bloquear o acesso da primeira mulher à Casa Branca em 2016. Não é o voto indesculpável a favor da guerra do Iraque, os anos relativamente medíocres como principal diplomata do governo Obama que vão pesar de maneira negativa e sim, talvez, com cumplicidade da mídia, a personalidade da brilhante e irritante Hillary Clinton.

Tudo o que sabemos sobre:
Lúcia GuimarãesO Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.