Comédia dramática repleta de elipses

RIOO cinema argentino chega cada vez mais ao Brasil - e ao mundo; o teatro também, mas mais vagarosamente. A bem-sucedida temporada de Conversando com Mamãe, baseada no texto de Santiago Carlos Oves, foi uma boa nova vinda do sul entre 2010 e 2011. Mulheres Sonharam Cavalos, de Daniel Veronese, trazida por Ivan Sugahara, outra.

ROBERTA PENNAFORT /, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2012 | 03h11

De Rafael Spregelburd, conhecido aqui por ter vivido o protagonista do gracioso filme O Homem Do Lado, Sugahara já havia pinçado A Estupidez. Desde ontem, no palco do Centro Cultural Correios, no centro do Rio, está a montagem de Pedro Brício de Modéstia, mais um texto da heptalogia de Spregelburd com os sete pecados capitais que compõem sua proposta de "cartografia moral": extravagância, inapetência, paranoia, teimosia, pânico, além da modéstia e da estupidez.

Xenofobia, imigração e dificuldades de comunicação permeiam duas histórias paralelas, uma na Buenos Aires da classe média em crise, outra na Europa do século 19. Fernando Alves Pinto, Gilberto Gawronski, Bel Garcia e Isabel Cavalcanti fazem dois personagem cada, que vão se contaminando.

A peça, de 1999 e muito premiada, já começa com um ruído: um homem entra no apartamento errado e é recebido por uma mulher de revólver na mão. A sensação de não pertencimento vai se avivando. As pistas não levam a respostas sobre a história, cheia de elipses.

"Busquei dos cenários realmente distintos para brincar com elementos similares: em ambos se apresentam migrantes e imigrantes, estrangeiros, estafa, medo, compaixão, amor e uma dose importante de soberba", diz Spregelburd, por e-mail.

"É um texto difícil, uma dramaturgia muito diferente da brasileira. Ele procura complicar, nada é dado de mão beijada", conta Isabel, para quem Modéstia não é um drama cômico, mas uma comédia dramática. "Acho que a peça não se define, o público vai determinar", completa Gawronski. "O povo brasileiro se entende através da gargalhada, então a tendência é sempre essa".

O diretor conta que teve dúvidas sobre as intenções do autor, todas tiradas por e-mail. A sintonia entre eles não é apenas geracional (Spregelburd faz 42 anos este ano; Brício, 40). Laureados representantes da cena contemporânea, conheceram-se quando o argentino esteve aqui com sua montagem de A Estupidez.

"Eu me identifiquei com ele, pelas temáticas e o tom da dramaturgia. Essa mistura de linguagem e de época é algo que tinha em A Incrível Confeitaria do Sr. Pelica e no Cine-Teatro Limite (duas de suas peças mais aclamadas)", aponta Brício. "Modéstia tem uma construção que tem muito a ver com a dramaturgia contemporânea: não explica nada de início. O teatro e o cinema argentino são sedutores. Eles têm uma sofisticação de roteiro que a gente não tem."

Spregelburd celebra o fato de sua obra "tão estrangeira" estar sendo ouvida no Brasil - a São Paulo, vão chegar ainda as peças Todo e A Paranoia. "Achamos que nos entendemos muito bem, por sermos irmãos, mas irmãos quase nunca se compreendem. Em Buenos Aires, conhecemos muito pouco da dramaturgia brasileira, 95% do que se monta é de autores portenhos. Estou surpreendido e feliz por este súbito interesse pelo meu teatro".

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