Comédia de erros, e num contexto que envolve religião

Crítica: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

16 de março de 2012 | 03h09

Muito apreciado no Brasil, o cinema argentino costuma conquistar o público por suas histórias de classe média, com que o espectador brasileiro, muitas vezes saturado de violência, costuma se identificar. É possível que isso venha a ocorrer mais uma vez - com Meu Primeiro Casamento. O longa de Ariel Winograd poderá evocar, para os cinéfilos de carteirinha, um filme de Robert Altman que já tem bem uns 30 anos, Festa de Casamento.

Como Altman, Winograd solta a câmera entre vários personagens, na festa do título. Existem os noivos e os padrinhos, os convidados, os que trabalham na festa. A maioria, senão todos, tem seus 15 segundos - não há tempo para tantos minutos - de fama, o que permite ao elenco de apoio brilhar quase tanto quanto a dupla de protagonistas. Natalia Oriero é ótima, mas não é muito conhecida no País. Daniel Hendler, além de ligado ao diretor Daniel Burman, é cada vez mais ator e, agora também produtor - leia acima -, de filmes brasileiros.

Daniel Hendler pode não ser tão popular por aqui quanto Ricardo Darín, o ator que, nos últimos anos, tem dado uma cara ao cinema da Argentina. Mas Hendler é certamente conhecido pelos cinéfilos. Ele não é tão vigoroso quanto Darín, que encarna o macho argentino - e provoca fantasias -, mas Hendler costuma compor um tipo de personagem complexo, principalmente para seu amigo Daniel Burman. Ambos são de ascendência judaica - e, embora Hendler afirme não ser conscientemente ligado às origens - ele procura se manter à margem dos cultos, quaisquer cultos, diz que a religião não lhe interessa -, o judaísmo está arraigado nele.

É o que se observa de forma muito nítida em Meu Primeiro Casamento, e de novo ele trabalha com um diretor de ascendência judaica (Winograd). Há algo do humor judeu nesse sujeito que comete um erro na dia do casamento - erro que procura ocultar da noiva. Antes o assumisse abertamente, porque, apesar de todas as suas iniciativas em contrário, o tal erro desencadeia uma sucessão de incidentes que, de repente, ameaça subverter não só a festa como o casamento e a própria vida do herói. Você ri - é a tragicomédia de outro homem ridículo -, mas, como em certas comédias italianas, lá pelas tantas o riso não flui mais e o espectador corre o risco de se sentir engasgado. Nanni Moretti também tenta construir esse efeito em outra comédia - muito mais valorizada, mas certamente não muito melhor - que estreia hoje, Habemus Papam. Ambas não deixam de lidar com um subtexto, ou contexto, religioso, mas é bom não forçar a barra.

Meu Primeiro Casamento foi a maior bilheteria do cinema argentino no ano passado, mas mais de um crítico já se perguntou se o humor do filme não terá um efeito local. O Brasil pode ser o grande teste - afinal, em outra língua, as piadas de Hendler e seus colegas de elenco ainda serão atraentes? Ator, roteirista, produtor e diretor, Ariel Winograd assina com Meu Primeiro Casamento seu segundo longa. O primeiro, Cara de Queso, Cara de Queijo, também é conhecido como 'meu primeiro gueto'. Conta a história de um adolescente que passa as férias num condomínio fechado, sofre bullyng - e realiza o rito de passagem. O bullying físico do outro filme é uma permanente ameaça moral. A 'mensagem' de Meu Primeiro Casamento, pois há uma, é a de que aquilo que não nos mata, fortalece.

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