Comédia contra o preconceito

Na 8ª edição, evento celebra com humor a comunidade árabe-americana

TONICA CHAGAS, ESPECIAL PARA O ESTADO , NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2011 | 03h09

Grande parte dos povos que formam a população americana comemora a herança cultural deles com desfiles, festivais religiosos, de cinema, de dança ou de comida. Alguns têm um mês inteirinho de celebração por todo o país, como é o caso dos negros em fevereiro. "E o que os árabe-americanos têm é alerta laranja", brinca o comediante Dean Obeidallah, filho de palestino e italiana. Ele e a atriz Maysoon Zayid, também de ascendência palestina, criaram uma forma especial para celebrar suas origens e contra-atacar o preconceito que se alastrou sobre as comunidades árabes depois dos ataques terroristas aos EUA em 2001.

O New York Arab-American Comedy Festival, que a dupla lançou em 2003, está sendo realizado esta semana na cidade pelo oitavo ano consecutivo. E também produziu, em Amã, a primeira edição de um evento similar no Oriente Médio.

Vários temas sensíveis relacionados à chamada "guerra ao terror" encabeçada pelos EUA fazem parte do repertório dos cerca de 50 participantes do festival, que começou domingo e vai até amanhã no People's Improv Theater e no Gotham Comedy Club, ambos em Manhattan. Muitos dos participantes do festival, como a própria Maysoon, de 37 anos, que nasceu com paralisia cerebral, também fazem sucesso no YouTube. "Piadas nos permitem lutar contra o preconceito e abordar tópicos dolorosos de maneira engraçada", diz Obeidallah, de 41 anos, que abandonou a advocacia pela profissão de fazer rir.

O festival ocorre num momento que os árabes têm a atenção do mundo sobre eles novamente, tanto pelo aniversário de dez anos dos ataques, celebrado há duas semanas, como pela "primavera árabe" que vem se sucedendo em ondas de revoluções populares na Tunísia, no Egito, na Líbia, na Síria e outros países daquela região desde o fim do ano passado. "Ninguém nunca usou e creio que nunca vai usar o 11 de setembro numa piada. Nosso objetivo é construir pontes e não piorar as coisas." Como Osama Bin Laden e George W. Bush o foram em edições anteriores, o personagem preferido dos comediantes este ano é Omar Kadafi.

"Minha vida mudou por causa do 11 de setembro e a reação americana a ele", afirma Obeidallah, que, muitas vezes, se sentiu constrangido ao ter que explicar a raiz de seu sobrenome. "Muitos de nós, que pensávamos ser basicamente brancos, percebemos que, na verdade, somos uma minoria e não sabíamos." Ele e Maysoon, que já tinham um currículo extenso como humoristas no teatro, na TV e no cinema, perceberam a boa reação da plateia ao contarem piadas sobre a negatividade contra os árabes e procuraram fazer disso uma arma positiva. "Queríamos compartilhar algo que nos definisse mais verdadeiramente e não tivesse a ver com terrorismo", explica Maysoon. A ideia funcionou tão bem que o festival já é uma tradição nova-iorquina.

Ramy Youssef, de 20 anos e filho de egípcios, que também participa da organização do evento, conta ter poucas lembranças do 11/9. Estudante de teatro, ele se interessou pela comédia justamente por ter crescido num ambiente que era "muito reacionário". Youssef procura atingir o público de sua faixa etária, para o qual escreve esquetes que, na maioria das vezes, giram em torno do comportamento familiar dos árabes e seus descendentes americanos. "O que faz nossa comédia ser única é que falamos de questões específicas da nossa comunidade e cultura, assim como fazem humoristas afro-americanos ou hispânicos."

Obeidallah lembra que o comediante judeu Mel Brooks, um dos que ele mais admira na profissão, disse ter consolo em fazer humor com Adolf Hitler, como o fez no musical Os Produtores, porque comédia é um grande mecanismo de defesa. Além do festival, ele também criou o show humorístico Stand up for Peace em parceria com o cômico judeu Scott Blakeman, para apresentações em universidades, como instrumento de apoio à paz no Oriente Médio e incentivo ao entendimento entre árabes e judeus americanos. "Não somos os primeiros a usar a comédia para levantar questões raciais ou sociais", afirma. "Richard Pryor, Chris Rock ou mesmo Lenny Bruce desafiaram essas questões e nunca deixaram de ser engraçados."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.