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Sérgio Augusto
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Começou assim

Eles só se conheciam de vista, de obas e olás. Lá do Clube da Chave, onde um deles de vez em quando tocava piano e o outro assistia, conversava e bebia. “Percebi logo que se tratava de um pianista diferente; tocava um som engraçado, novo”, comentaria mais tarde o espectador Vinicius de Moraes.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2016 | 02h00

Do piano, Tom Jobim assim percebeu a presença do poeta: “Sua cabeça redonda, inconfundível, chamava a atenção, sentado à mesa frente ao copo de uísque e cercado de amigos não menos famosos: Antonio Maria, Fernando Lobo, Rubem Braga, Paulinho Soledade, Paulo Mendes Campos, Di Cavalcanti. Eu, mais jovem, não me atrevia a ir além da distância regulamentar”.

O Clube da Chave ficava no Posto Seis da Avenida Atlântica, em Copacabana, onde antes funcionara o Cassino Atlântico e, depois, a TV Rio, até virar aquele hotel de luxo que hospedou Sinatra. Seletivo reduto noturno bolado por Humberto Teixeira (parceiro de Luiz Gonzaga) e o animador de auditório da Rádio Nacional Manuel Barcelos, com verba do Ministério da Educação, tinha apenas 50 sócios e era um entra e sai de artistas, intelectuais e boêmios, a esticada natural para boa parte dos fregueses vespertinos do Villariño, no centro da cidade.

Ou melhor, Casa Villariño, bar com uma delicatessen no fundo, até hoje funcionando na avenida Calógeras. Abrigava a mais bem frequentada happy hour das redondezas. Habitués de maior fama: todos os citados no terceiro parágrafo, mais Ary Barroso, Mario Reis, Lamartine Babo, Araci de Almeida, Dorival Caymmi, Ismael Silva, Silvio Caldas, José Lins do Rego, Fernando Sabino, Tônia Carrero, Antonio Bandeira, João Cabral de Mello Neto - além, é claro, do jornalista e crítico musical Lúcio Rangel, que naquele antro de pinguços alegres e inteligentes apresentou seu sobrinho Sérgio Porto a um jovem pianista: “Sérgio, este é o Tom”. 

Naquele início dos anos 1950, Sérgio Porto escrevia crônicas no Diário Carioca e na Tribuna da Imprensa, Lúcio tinha uma coluna de música popular na revista Manchete e Tom se matava de trabalhar em casas noturnas e escrevendo arranjos a mancheias para o elenco estelar da gravadora Continental. Meio que adotado por Radamés Gnatalli, compusera uns poucos sambas com, entre outros, Aloisio de Oliveira, Dolores Duran e Billy Blanco. Com este, aliás, fizera até uma sinfonia-exaltação ao Rio. Dali a pouco, iniciaria outra bela parceria, com Newton Mendonça. Já era mais que uma promessa.

Enquanto isso, o de cabeça redonda, depois de novas aventuras jornalísticas no Brasil (coluna de discos e consultório sentimental no jornal Última Hora), ganhara o posto de segundo secretário da embaixada brasileira em Paris, onde ainda estava quando o libreto de sua ópera popular, Orfeu da Conceição, foi premiado no concurso de teatro do 4.º Centenário de São Paulo. Animado com o interesse de um produtor de cinema russo baseado em Paris, Sacha Gordine, em extrair dela um filme, Vinicius ressuscitou a ideia de encená-la em palcos brasileiros. 

Uma década se passara desde que o poeta, numa noite de retiro carnavalesco na casa do cunhado, o pintor Carlos Leão, em Niterói, tivera o estalo de sua Porgy & Bess greco-carioca ao ler o libreto de Calzabigi para a ópera Orfeu e Eurídice, de Gluck, que pegara ao acaso para combater uma insônia. Quase toda escrita no período em que trabalhou no consulado de Los Angeles, Orfeu da Conceição, assim batizada por sugestão de João Cabral, só ficou pronta em 1953 e quase foi musicada por Vadico, antigo parceiro de Noel Rosa (Feitio de Oração, Feitiço da Vila, Conversa de Botequim, Pra Que Mentir), que se juntou, como pianista, a Carmen Miranda e o Bando da Lua em Hollywood. Um problema com as coronárias afastou-o do projeto. À cata de um substituto para Vadico, Vinicius, que não queria “cair nos monstros sagrados”, foi buscar sugestões junto aos comparsas do Villariño. 

Sentados à mesa grande que a turma religiosamente ocupava ao final da tarde, o poeta encontrou Lúcio Rangel e o jornalista e craque do humorismo radiofônico Haroldo Barbosa. Bebiam uísque, como sempre. Trazida a terceira dose, Vinicius relatou seu contratempo. “Por que você não experimenta um rapaz que eu acho que tem muito talento?”, sugeriu Lúcio. (Reproduzo a frase reproduzida por Vinicius em seu depoimento ao Museu da Imagem e do Som.) Por coincidência, numa mesa ao lado, o tal rapaz de muito talento mas que só tinha grana para tomar chope, corrigia a lápis uns pentagramas. 

Convocado a juntar-se ao trio, Tom ouviu a proposta “naquela vaguidão dele de sempre”, e afinal perguntou: “Tem um dinheirinho nisso aí?”. Indignado, Lúcio estrilou: “Como é que você me fala em dinheiro diante de um convite desses? Tom, este é o poeta e diplomata Vinicius de Moraes!”. 

Tinha muito mais que um dinheirinho naquela proposta. Acabara de nascer, em pleno maio de 1956, uma das amizades mais instantâneas, fraternais, prolíficas e duradouras da música popular brasileira. 

Vinicius levou o texto da peça até o apartamento de Tom, na rua Nascimento Silva, em Ipanema. Tom gostou e abriu o piano. Os dois ou três primeiros sambas da dupla, “muito ruins”, foram para o lixo. No primeiro entrosamento perfeito, aflorou Se Todos Fossem Iguais a Você. E, logo em seguida, mais quatro ou cinco árias. Tom dedilhava o tema, Vinicius rascunhava a letra, mais atento à métrica que ao conteúdo, e depois a burilava, longe das vistas do parceiro. 

A primeira leitura da peça, feita por Vinicius para um seletíssimo auditório de artistas, jornalistas e celebridades, foi na última semana de junho, durante um caju-amigo no Clube dos Marimbás, no Posto Seis, bem defronte o prédio onde outrora ficava o Clube da Chave. A primeira audição privada das músicas, com Tom ao piano, também aconteceu ali perto, no apartamento da pintora Maria Roberto e do arquiteto Mauricio Roberto, um dos salões mais bem frequentados pela intelectualidade do eixo Rio-São Paulo. 

As discussões sobre concepção e arquitetura do espetáculo (cenários de Niemeyer, cartazes de Carlos Scliar, Djanira, Raimundo Louzada e Luiz Ventura) se desenrolavam ora no extinto Clube dos Tatuís, na rua Gomes Carneiro, ora no apartamento de Vinicius. Eram sempre abertas aos amigos da dupla. Os ensaios, no High Life, tradicional salão de bailes carnavalescos da rua Santo Amaro, na Glória, duraram três meses.

 

Com o Teatro Municipal lotado, Orfeu da Conceição estreou em 25 de setembro, para uma temporada de seis récitas. Quanto ao filme que a partir dela o francês Marcel Camus dirigiu, com o título de Orphée Noir (Orfeu do Carnaval), melhor esquecê-lo. 

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