Começo e fim

Na semana que passou, precisamente na terça-feira, dia 3, fui à Academia Brasileira de Letras levado pela amizade ao falecido Eduardo Portella. 

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

10 Maio 2017 | 03h00

Lá, consternado pela morte súbita que é como levar um tiro nas costas, falei os lugares-comuns de sempre aos seus próximos e aos conhecidos que ali se confrontavam com o nosso permanente e inescapável “principio de realidade”. A morte que nos iguala ou, como bem diz essa academia que é de letras, nos imortaliza. 

Há muitos momentos na morte, mas um deles é constante. A pessoa que partiu e com a qual estávamos convivendo é posta no papel de morto. Um papel no qual somos nós, seus sobreviventes temporários, que atuamos como atores. Os cargos, os papéis sociais e, acima de tudo, a rede à qual aquele que partiu estava inserido precisa ser reconstruída e refeita. Mas, se o corpo pode e, no caso brasileiro, é rapidamente descartado, o lugar que ocupava no coração dos seus amigos precisa de um tempo para passar da dor à saudade. É preciso tempo para passar das lágrimas da despedida do corpo ao suspiro profundo de uma saudade que admite a finitude – sobretudo a finitude daqueles que amamos. 

O nosso lado biológico de fato morre; mas o lado social e psicológico permanece no luto que, ao contrário do enterro, insepulta desespero, pânico e depressão – naquilo que muitos chamam de melancolia e nós, de saudade.

A saudade faz a mediação entre o começo e o fim, pois convocando o tempo – esse senhor majestoso do mundo –, ajuda a conjugar perda com permanência.

*

Na outra semana, o laço de afeto a um outro amigo e à sua mulher moveu-me a esse mesmo prédio. No seu salão nobre e engalanado, testemunhei, encantado como sempre, o rito de passagem que agregou mais um mortal à lista dos imortais que ocupam as 40 cadeiras dos seus fundadores. Meu lado antropológico que não me deixa calar e quase sempre coloca-me em apuros não deixou de registrar algumas etapas do solene ritual de agregação. Testemunhei o encantamento pelo uso do emoldurado fardão e imaginei que talvez esse roupagem (hoje um fardo caríssimo) simbolize uma armadura contra as batalhas da vida. Foi com atenção que notei como o neófito entrou pelo lado direito da mesa (ou altar) no centro da qual o presidente da sessão oficializava como um sacerdote o delicado e repleto de potência drama da passagem. Aquele que conduziu o noviço estava do lado esquerdo – o mesmo lado, aliás, em que nós, convidados, estávamos acomodados. Mas tanto quem estava à direita ou à esquerda formava uma plateia obviamente segregada das quarenta cadeiras sagradas, ordenadas num espaço tabu, reservado e exclusivo aos já iniciados. Foi neste espaço que, na hora marcada, ouvimos o discurso de inauguração do neófito e, em seguida, a saudação de seu agregador. 

O rito consiste ainda da entrega de uma espada e da assinatura num imenso livro. O livro que, consagrada a aceitação por livre vontade do novo membro, agora parte da confraria e – mudo – sepulta o lado mais íntimo e, ao mesmo tempo, mais impessoal e inimitável do novo acadêmico: o seu nome escrito de punho próprio.

Ali falei com Célia e com um Eduardo Portella sempre sorridente. Naquela ocasião, éramos todos inocentes – como, aliás, somos – diante da morte e das mortes não anunciadas. 

Esquecido que, para morrer basta estar vivo – essa obviedade da nossa finitude –, apreciei o encontro e assegurei-me mais uma vez que – o que quer que sucedesse neste Brasil que incestuosamente roubou a si mesmo –, haveria um Eduardo Portella para ajudar a resolver. Seja com seu sorriso de Mona Lisa baiano, seja com sua capacidade de juntar o fio de linha de costura com cabo de amarrar navio, conforme ele mesmo especulou nas suas permanentes reflexões sobre o intelectual e o poder. 

De fato, Eduardo Portella teve uma plena consciência das dificuldades de juntar inteligência, cultivo literário e governo. Sabia como era difícil ser o renunciador que pensa o mundo e também o político que ajuda transformá-lo. Como não ver nele o intelectual e o ministro da Educação que, diante de uma greve de professores, abriu mão do cargo político porque o de professor era maior e mais importante?

Foi desolador saber de sua morte e vê-lo pela última vez. Ele não mais sorria o seu sorriso que sempre me acalmava. Mas vi no seu rosto a santa e doce paz dos mortos. Alcançou a imortalidade.

*

“Tu fingiste que me enganaste e eu fingi que acreditei, foste tu que me enganaste ou fui eu que te enganei?”. 

Depois das revelações de um Duque do PT sobre os laços de Lula com a indústria de propinas, caberá à Justiça romper ou consagrar a velha quadrinha mineira legitimadora do labirinto ético nacional. 

Mais conteúdo sobre:
Roberto da Matta Crônica

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.