Começo de ano sem fogos e badalações

Chovia quando deixamos o recanto Picumã, a estrada de terra estava lisa, passamos pela misteriosa Escola de Filosofia, coalhada de automóveis, luzes amarelas como lanternas japonesas faziam as vezes de decoração festiva. O aviso na cancela da escola é intrigante: “Ao chegar, apague os faróis, acenda a luz interna”. Como acendê-la? Com essa questão me vi começando a despedir do ano passado, que terminou com a morte de uma pessoa brilhante, Daniel Piza. Nada sabemos, mas ninguém merece morrer aos 41 anos. Ano que nos levou igualmente Moacyr Scliar. Também se foi Marlene França, a atriz descoberta por Alex Viany aos 14 anos, para o filme Rosa dos Ventos, e a quem, um dia, em 1957, dei um balão vermelho depois de passearmos na roda-gigante do Parque Shangay, que não existe há décadas. Tudo na vida se torna lembrança.

Ignácio de Loyola Brandão,

13 de janeiro de 2012 | 10h16

 

Quando pegamos a estradinha ladeada por hortênsias que leva ao centro de São Francisco Xavier, a rua estava deserta, casas fechadas, diferente da movimentação da tarde. Silêncio. Rodeamos a igreja, fiéis saíam da missa noturna, se cumprimentavam, se abraçavam. Despedidas de ano. Entramos no Photozofia às dez e meia da noite, já havia algumas mesas ocupadas. Lugar aconchegante, nossa mesa ficou diante de um painel que tinha máquinas fotográficas de várias épocas, para deleite de meu filho André, um fotógrafo.

 

Este é um lugar especial nesta pequena cidade que, além de se movimentar com um festival literário primoroso, o da Mantiqueira, abriga, ao seu redor, entre cachoeiras e rios murmurantes (por causa das pedras), casas de escritores, artistas, jornalistas, filósofos, e todos que buscam sossego e aqui estão sob a guarda da proteção ambiental. Tanto que nem houve fogos à meia-noite. A chuva era pouca. No balcão do bar e casa de shows íntimos, cuidados por Patricia, estavam os apetizers, o ceviche, as peras ao roquefort, saladas de hortaliças orgânicas, pupunha ao pesto, chancliche com alecrim, patês, frutas secas, frutas tropicais, água de ervas e batidas de frutas, figo com presunto, pera com queijo, sementes de romã. São sete que devemos apanhar e colocar na carteira. Como não uso carteira, guardei no estômago.

 

A sensação é que todos nos conhecíamos, era um calmo final de ano e, louvemos ao Senhor, não havia uma televisão ligada prometendo um show da virada e os inevitáveis fogos de Copacabana. Quem aguenta? Não, nem todo mundo quer badalação, posar para fotógrafos, quem precisa disso? Havia, sim, um show para nós com a cantora Airó e percussão e guitarra, um som brasileiro, animado com músicas que todos curtimos ao longo da vida, tão distante, mas tão distante desse badalado Teló com sua insipidez, para não dizer estupidez. Se isso é revelação, meu Deus, o que está acontecendo com a música popular?

 

Airó nos fazia flutuar pelo Brasil com todas aquelas canções que nos emocionaram, nos fizeram dançar, animar, brincar, enquanto mansamente comíamos truta com arroz negro, ou cordeiro ao vinho com cuscuz marroquino, ou um nhoque recheado com queijo e molho de alcachofra, comidas cujo perfume (o Photozofia é pequeno) tomou o ambiente, enquanto olhávamos o relógio a caminho da meia-noite. Da grande mesa ao lado da minha, uma senhora baixa, cabelos brancos veio me dar o primeiro abraço do ano. Quem era? Tenho a fisionomia, o calor do abraço.

 

Precisamos de que para sermos felizes? Não sabemos, não temos ideia. Ou temos várias ideias. Nunca somos inteiramente felizes ou felizes o tempo inteiro. Se fôssemos, seríamos pasmados. Naquele 31 de dezembro, enquanto a chuva bateu forte lá fora, e fizemos a inevitável contagem regressiva, pensei em Daniel Piza e o AVC que o conduziu num instante e me levou a refletir no que para mim significa ainda estar aqui, quando um AVC poderia ter me levado há 15 anos. De tempos em tempos recebo uma mensagem: a vida é frágil, não se esqueça. Por que fui avisado? A cada ano penso nisso. Não tenho resposta, ainda não acendi essa luz interior. São essas perguntas que nos conduzem pela vida tentando solucionar o mistério? Em cada primeiro de janeiro acordo com esta perplexidade e feliz por estar vivo. Só quem se aproximou e não ultrapassou essa fronteira limite tem ideia do que é a intensidade do viver.

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