Começar de novo

Solo de Marcelo Braga parte de sua vivência durante tratamento médico

HELENA KATZ, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2013 | 02h06

Do ponto de vista artístico, nunca foi simples lidar com a relação arte vida. Mas depois da edição de 26/12/1994 da revista New Yorker, ficou ainda mais complexo. Nela, a renomada crítica Arlene Croce declarou, no artigo Discutindo o Indiscutível, que não escreveria sobre o Still/Here coreografado por Bill T. Jones porque um crítico não tem o que dizer sobre um trabalho apoiado na vitimização, produzido para despertar compaixão. Soropositivo, Bill T. Jones exibia um filme com doentes terminais de câncer e aids em Still/Here. A polêmica aí iniciada se espalhou por muitas mídias em diferentes países, trazendo à tona o aspecto político da questão ética nela embutida.

Vale lembrar a infeliz manifestação de Arlene quando o solo de Marcelo Braga, O Homem Vermelho, é apresentado hoje e amanhã, no Sesc Belenzinho. Nesta sua primeira criação sem a parceria de João Saldanha, com quem trabalha há 22 anos, Braga fez da sua saúde o ponto central. Um câncer raro e incurável (linfoma cutâneo de célula T), o afastou dos palcos. "Depois de três anos de imobilidade - e não tem castigo pior para um dançarino -, estou ainda aprendendo a lidar com um corpo que demoro para reconhecer porque está diferente daquele que realizou toda a minha vida profissional", conta ele ao Estado.

O excesso de cortisona que o tratamento exige produz inchaço. "A cada vez que entro na sala de ensaio preciso primeiro identificar como está o corpo e vou aprendendo a escutá-lo. Agora mesmo, está bem dolorido, escamando e muito mais vermelho."

O Homem Vermelho nasceu em agosto de 2011, durante o período de três meses em que Braga fazia radioterapia em São Paulo, e chegou ao palco no Rio, onde vive, exatamente um ano depois. "O desejo de fazer um trabalho foi o que segurou a minha cabeça e detonou um momento novo na minha vida. Ia morrer, e como sobrevivi veio a necessidade de me manifestar. Foi um momento difícil, estava fisicamente destruído e, ao contrário do que geralmente acontece quando se está criando, não me recolhi. Mesmo gordo e careca, saía para assistir a tudo o que podia."

Para materializar o projeto, convidou artistas que admirava e não conheciam o seu trabalho, que imediatamente aceitaram: a atriz Simone Spoladore na elaboração da dramaturgia; Walter Carvalho para compor a obra; e Domenico Lancellotti na produção da trilha sonora. Na assistência de direção o critério foi outro, pois chamou Laura Samy, parceira de longa data.

Marcelo Braga fala da nova realidade que está vivendo: "Esse trabalho me deu um presente: a descoberta de como é não ensaiar porque não é possível ensaiar o que vivi, porque não posso me transformar em um personagem, porque o trabalho fala de coisas não ensaiáveis".

Por mais estranho que pareça, o vermelho não é uma metáfora, mas a cor de sua pele. "O que me limita é a minha pele, porque só posso ir até onde ela deixa. Fica tudo muito visível, muito aparente. No início, foram muitas noites sem dormir, com medo de me expor. Sempre fui muito vaidoso e agora convivo com todas essas coisas. Mas é muito rico ter que me reinventar."

Em abril, O Homem Vermelho, que mistura voz, movimento e imagem, vai seguir para uma turnê por Salvador, Recife, João Pessoa, Teresina e São Luiz. "Aos poucos, vem nascendo um novo trabalho, que deve acontecer no ano que vem. Talvez os três anos em que fiquei parado rendam três solos em torno do que venho vivendo", acrescenta Marcelo Braga.

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