Começa a saga de guerreiro Angus

Um pequeno estande brasileiro chamou a atenção dos grandes executivos americanos do mundo do entretenimento, durante a Feira de Licensing de Nova York, no ano passado. Localizado curiosamente ao lado do reservado do megassucesso O Senhor dos Anéis, o publicitário Orlando Paes Filho deixava boquiabertos representantes graduados da Warner Bros. com sua criação: o guerreiro Angus, personagem cuja epopéia participa da história da Escócia entre os séculos 9.º e 21. Tratava-se de um trabalho que tomou 25 dos 41 anos da vida de Paes e cujo primeiro fruto chegou nesta semana às livrarias, Angus - O Primeiro Guerreiro (392 páginas, R$ 44), volume inicial de uma coleção de sete, um investimento de peso da Arxjovem, editora ligada ao grupo Siciliano. Para melhor entender o motivo que deixou os executivos da Warner espantados, diante de um produto que, bem comercializado, pode render até US$ 2 bilhões em dez anos, é preciso recuar no tempo. Mais precisamente para o ano de 1978, quando Paes Filho, então um adolescente de 16 anos, percebeu que sua fixação pela Escócia tomava grandes proporções. Aos poucos, o rapaz que mantinha uma ativa vida social começou a permanecer cada vez mais tempo fechado em seu quarto, em meio a rascunhos de histórias. "Meu fascínio era pela Escócia do século 9, época cuja documentação foi produzida principalmente por monges", conta ele que, de repente, começou a montar uma hierarquia de lutadores - surgia Angus, jovem guerreiro celta que, ferido durante uma invasão bárbara, é recolhido por monges e druidas. Aos poucos, Paes Filho aprofundou-se na pesquisa de uma fascinante história, consultando arquivos e especialistas. Ricardo da Costa, por exemplo, professor capixaba versado em história medieval, forneceu as datas exatas dos acontecimentos verídicos. De Claudio Blanc, mestre em história da língua inglesa, do Centro Cultural Britânico de São Paulo, o rapaz conseguiu informações sobre a imposição da língua inglesa entre os escoceses. E detalhes sobre a construção de igrejas góticas, além de dados sobre o comportamento dos católicos durante a Idade Média, foram conseguidos com o monge beneditino Marcelo Bertani, do Mosteiro de São Bento, um estudioso da cultura bizantina. Ao mesmo tempo, Paes Filho montou uma biblioteca sobre a época, que hoje beira os 500 volumes. "A intenção era evitar qualquer deslize histórico, como o de mostrar os guerreiros vikings utilizando chapéu com chifre nos combates, o que não condiz com a realidade." Ao mesmo tempo em que se aprofundava nas pesquisas e avançava na história, Paes Filho decidiu também fazer as ilustrações, que compõem outro atrativo do livro. E, para completar, compôs músicas que seriam ouvidas junto da leitura de cada capítulo - a trilha possivelmente também será colocada à venda. Como não dispunha de recursos que permitissem se dedicar unicamente à saga, Paes Filho desdobrou-se em empregos que, além de possibilitar a subsistência, traziam-lhe conhecimento técnico. Assim, durante sete anos, trabalhou na Marvel Comics, empresa de história em quadrinhos, como gerente de produtos dos personagens X-Man e Conan. Quando percebeu que seu trabalho pessoal atingia a maturidade, deixou a empresa, fundou a NW Studios, empresa que desenvolveu profissionalmente a saga de Angus, e registrou a marca internacionalmente. Até chegar o momento do encontro com os engravatados da Warner, Paes Filho investiu cerca de US$ 1,5 milhão em um projeto que, segundo os executivos americanos, graças à sua precisão, reduz o trabalho de pesquisa histórica e permite um ganho de tempo no lançamento do personagem, inclusive no cinema. Enquanto aguarda um sinal verde da Warner, Paes Filho cuida do lançamento do primeiro livro - até o sétimo, quando a saga de Angus chegar a 2020, será editado um volume por ano. E, apesar da inspiração européia, Paes Filho nota uma brasilidade latente na história: "O povo celta da Inglaterra, assim como o nosso, sempre foi muito alegre, expansivo e disposto a brigar pelos seus direitos."

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