Comboio de contradições invasores à vista

Um dos maiores artistas contemporâneos, cantor começa amanhã no Rio turnê de seis shows pelo País

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2012 | 03h10

Desembarca hoje no Rio para sua quinta turnê pelo País um dos mais importantes artistas do século 20, Robert Allen Zimmerman, o Bob Dylan. O cantor, compositor, escritor, ator, pintor e esgrimista cultural esteve pela última vez na América do Sul em 2008 (fez show no Via Funchal, em SP.

Antes mesmo de chegar, Dylan já abriu um novo round de um enfrentamento tão antigo quanto sua carreira: proibiu, sem exceções, todo o credenciamento de imprensa (repórteres, resenhistas e fotógrafos) para seus 6 shows pelo País. "No pictures, no reviewers, no press at all" ("sem fotos, sem críticos, nada de imprensa"), dizia um comunicado do seu agente.

Como começou essa briga? Bom, se o leitor tiver paciência de procurar um videodocumentário chamado Dylan Speaks - The Legendary 1965 Press Conference in San Francisco (ST2 Vídeo), vai ter uma pequena ideia do barraco. Dylan tinha 24 anos e avião próprio. Estava assombrando a América com seus versos e sua postura. Ao mesmo tempo, lutava ferozmente para não assumir o papel de oráculo de ninguém. "Músicas não vão salvar o mundo." A única entrevista coletiva de sua carreira foi um festival de sarcasmo para com a imprensa presente.

A melhor expressão desse dilema está no filme Não Estou Lá, de Todd Haynes. No filme, uma de suas personas (interpretada magistralmente por Cate Blanchett) conversa com o jornalista Keenan-Jones. "Eu gostaria de saber por que o senhor insiste em nos confundir. Alguns podem acabar duvidando de sua sinceridade", diz Jones. "Quem disse que sou sincero?", rebate Dylan. Nessa resposta, que parece apenas grosseira, está o germe de uma grande discussão estética: o que importa se Van Gogh, Picasso, Pollock, Villa-Lobos, Balanchine eram sinceros? É precondição para fazer arte? Por que se exigia isso de um artista popular?

"Somente ele tem a força pura e impositiva para aguentar suas próprias imagens monumentais, demoli-las e reconstruí-las", disse dele o poeta Allen Ginsberg, em 1975. "Para cada dólar que ganho há uma poça de suor no chão. É questão do quanto você pode aguentar. Quanto tempo você consegue persistir?", indagou Dylan em 1978. Trinta e quatro anos depois, aos 70 anos (fará 71 no dia 24 de maio), ele vem suando bem: faz turnês e gravações regulares (e shows no qual se questiona continuamente). Sua última apresentação foi em novembro, no Hammersmith Apollo, em Londres.

Em seus shows, canções conhecidas como Ballad of A Thin Man e Tangled Up in Blue, e mesmo trabalhos mais recentes, como Mississippi e Things Have Changed, ressurgem com arranjos novos. "Não importa em que ponto você está de sua vida, há sempre um disco de Dylan que ajuda a mapear o caminho", disse Bono, do U2.

Dylan dispensaria apresentações, mas vamos lá. Ganhou dez Grammys, está no Salão da Fama do Rock and Roll e, em 1999, foi incluído na lista das pessoas mais influentes do século 20 pela Time. Em 1990, foi nomeado Comendador da Ordem das Artes e das Letras da França. Cotado inúmeras vezes para o Nobel de Literatura, ganhou o Prêmio Príncipe de Astúrias em 2007.

"Fui consagrado o Grande Irmão da Rebelião, o Sumo Sacerdote do Protesto, o Czar da Discordância, o Duque da Desobediência, o Líder dos Aproveitadores, o Kaiser da Apostasia, o Arcebispo da Anarquia, o Grande Figurão. De que diabos estamos falando?", perguntou, em suas memórias, indicadas para o National Book Critics Circle - ao lado de Philip Roth, Alexander Hamilton e Adrienne Rich.

Shows de Dylan no Brasil costumam se caracterizar por uma sanha invasora. Em 2008, no Via Funchal, Laura Artioli, de 21 anos, invadiu duas vezes o palco e tocou no artista. Dylan apenas sorriu. Ele costuma colocar em cima das caixas acústicas uma réplica do Oscar, que ganhou em 2001, pelo tema do filme Garotos Incríveis.

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