Imagem Roberto DaMatta
Colunista
Roberto DaMatta
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Combinações

Somos contrários ao debate e esse viés traz à tona nossa velha matriz autoritária. Nela, discordar é equivalente a rebeldia e a desobediência, pecados mortais nos sistemas hierarquizados

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

14 de agosto de 2019 | 02h00

Quando combinamos coisas separadas, digamos, bananas com laranjas (uma “baranja”, Oriente com Ocidente, igualdade com hierarquia, riqueza despreocupada com pobreza como destino, fogo com água – a lista é imensa e complexa – juntando imaginativamente objetos de natureza diferenciada, causamos espanto e surpresa.

Pois inventamos algo com o potencial de ser lido como um insulto (“filho de uma cadela” ou “burro doutor”), uma abominação (Lúcifer, o anjo mau), uma extraordinária novidade (o samba-jazz o surrealismo ou a poesia sem rima), uma ironia crítica como fez o economista Edmar Bacha ao, em 1974, em plena ditadura militar, criar Belíndia. Um país não gramatical – metade democrático e rico como a Bélgica e metade como a Índia, atrasado e pobre; ou, simplesmente, algo tolo, mas curioso, como “baranja”, uma fruta inventada 

O denominador comum de todas as combinações é a criatividade resultante do encontro negativo ou positivo (mas sempre curioso) de coisas, papéis sociais, ritmos, bebidas, comidas, roupas, moradias, conceitos ou linguagens antes separados pelo tempo, pela moralidade, religião, cultura. Coisas e instituições que, em muitos casos, eram tidas como estanques como o masculino e o feminino, a juventude e a velhice, o dia e a noite. 

Se os sociólogos franceses do início do século 20, inspirados em Durkheim, falaram da sociedade como um sistema de classificação, eles deixaram de lado o fato de que, se em cada sistema havia um “lugar para cada coisa; e cada coisa em seu lugar”, existia – em paralelo – uma luta clara ou oculta com gestos, objetos e valores que, por dentro e por fora, desafiam as classificações. 

Todas as muralhas, como todas as “normalidades”, foram feitas para ser ultrapassadas. Nenhuma língua natural deixa de entender e até mesmo incorporar palavras de outras línguas. O humano é feito numa dialética de impulsos internos e de isolamento e de incorporação do que vem de fora. A existência de pureza (associada a perigo e responsabilidade como bem viu a antropóloga Mary Douglas) ao lado da impureza, associada ao diferente, ao proibido, ao estrangeiro e a alguma forma de conjunção contraditória ou liminar, como dizia meu amigo e mentor Victor Turner, entre coisas anteriormente separadas, é uma constante da dinâmica social.

É uma dimensão com que a comunicação densa, instantânea e globalizada nos obriga a lidar diariamente. Viver, como dizia Freud, é lidar com as circunstâncias que nos são impiedosamente impostas de fora, as quais contrariam desejos e planos que, por sua vez, são reprimidos de dentro... 

O que me espanta no Brasil atual não é só a polarização lida pelo seu lado negativo, uma prova da ignorância de que a competição política exige regras claras sendo, por isso mesmo, um ponto central das democracias modernas; mas tomá-la como patologia. Como uma anomalia reveladora de como somos contrários ao debate, à disputa e ao saudável (mas mal-educado) bate-boca. Esse viés traz à tona nossa velha matriz autoritária. Nela, discordar é equivalente a rebeldia e a desobediência, pecados mortais nos sistemas hierarquizados.

Nesse Brasil, só há lugar para a diversidade hierárquica (homens e mulheres, senhores e escravos, ricos e pobres, povo e governo) e foi ela que criou como contrabando cultural o jeitinho – esse lado jeitoso do agressivo “Você sabe com quem está falando?”. O nacionalismo radical é uma nobre expressão de uma alergia à difusão cultural – que nos torna humanos – com suas desafiadoras criatividades.

A existência, portanto, de coisas como “baranja” talvez seja tão rotineira quanto o esforço de não confundir bananas e laranjas e, com isso, perder o prazer de tomar uma salada de frutas. 

Enquanto os ricos das Bélgicas nacionais estavam em cima e os pobres indianos não existiam civicamente, havia senso. O problema é quando verificamos que a Belíndia do Bacha não foi e há enormes resistências para desmanchá-la. 

Tudo o que sabemos sobre:
Edmar Bachademocracia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.