Don Macullin/Divulgação
Don Macullin/Divulgação

Comando de John

Lennon liderou sessão, criando situações para as fotos de Don McCullin

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2011 | 00h00

Quando o telefone tocou num certo dia de 1968, o fotógrafo inglês Don McCullin acreditou que era um trote - do outro lado da linha, um homem se identificou como representante da gravadora Apple e o convidava a passar um dia fotografando um dos mais famosos grupos de música do mundo, os Beatles, em troca de 200 libras. Era julho e McCullin, aclamado pela cobertura de diversas guerras (acabara de voltar do front do Vietnã), acabou aceitando.

As 92 imagens coloridas e em preto e branco captadas por McCullin em um domingo atípico acabaram esquecidas e agora, mais de 40 anos depois, foram reunidas em um livro, Um Dia na Vida dos Beatles, lançado nesta semana pela Cosac Naify.

O momento era particular. No ano anterior, os Beatles lançaram seu disco mais ambicioso e vanguardista, Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, e preparavam outro disco duplo também emblemático, Álbum Branco, que seria lançado em novembro de 1968. Entre tantas opções, por que escolheram McCullin? "Sabíamos que Don era muito bom", responde Paul McCartney, na introdução do livro. "Ele não ficava disparando a torto e a direito, era alguém muito atento ao rosto humano."

"Não dava para comandar pessoas como aquelas", conta McCullin ao Estado. "Os acontecimentos foram aleatórios, visitamos diversos pontos de Londres e terminamos tomando chá na casa de McCartney. Eles assumiram o controle e foi ótimo que aconteceu assim."

Por que os Beatles o contrataram para a sessão de fotos?

Eles estavam fartos de serem caçados por fotógrafos de jornais e revistas, todos buscando praticamente o mesmo ângulo - cada movimento que davam era registrado por alguma câmera. Naquele momento, os Beatles queriam algo diferente, um novo olhar. Foi então que pensaram em meu nome. O curioso é que não sou bom fotógrafo de celebridades, o que me deixou ainda mais intrigado e honrado.

Você era fã dos Beatles?

Curiosamente, não. Gosto de música, mas prefiro a fase Motown dos anos 1970 do que os Beatles. Mas, como fotógrafo, meu interesse são pessoas e eles, como um grupo conhecido no planeta inteiro, representavam uma grande oportunidade artística. Quando me telefonaram oferecendo o trabalho por 200 libras, eu quase respondi que pagaria para fazer isso (risos). Por falar nisso, não faturei nada com essas fotos até a morte de Lennon.

Sério?

Sim, porque os originais ficaram no escritório da Magnum em Nova York e ninguém mais se lembrou deles. Algumas imagens saíram na Life e na Paris Match e mais nada. Eu também me esqueci, pois meu interesse maior era retratar guerras e revoluções.

Você poderia estar rico hoje, se tivesse prestado mais atenção nessas fotos, não?

Provavelmente, sim, mas preferi seguir outro lado da carreira. Se quisesse ficar rico, teria fotografado moda ou publicidade. Ninguém fica famoso registrando guerras. Mas garanto que sou mais feliz.

Mas você não percebia, já na época, uma relevância cultural nos Beatles?

Claro, eles marcaram várias décadas não apenas a música mas também o comportamento. Os Beatles criaram estilos que mudaram (e ainda mudam) a vida de milhares de jovens.

As diferenças são evidentes, mas qual é a principal entre fotografar os Beatles e acompanhar uma guerra?

A primeira forma é basicamente uma extensão do show business, em que quase não há surpresas; na outra, milhares de vidas correm risco, inclusive a sua. Na primeira, você depende basicamente do bom humor dos fotografados, enquanto na outra o fotógrafo trata com governantes nem sempre bem-intencionados. Finalmente, na primeira, os modelos são pessoas ricas e privilegiadas, e na outra, homens e mulheres que desconhecem como será seu futuro.

Durante aquele dia, o que mais o incomodou?

Não gostei da presença da mulher de Lennon, Yoko (Ono), que acompanhou a sessão das fotos. Ela foi um saco, reclamava de tudo: "Por que esse fotógrafo escolheu essa posição errada? Por que está ali e não aqui?" Tive vontade de matá-la (risos). Está explicada a má reputação que tem até hoje. O que salvou a situação foi o próprio Lennon, um homem criativo e com incrível poder de domínio e persuasão.

Por falar nele, há uma foto em que Lennon simula estar morto, enquanto os outros três o observam mais com curiosidade do que com medo.

Foi muito irônico porque ele não queria demonstrar estar morto. Daí também a reação tranquila dos outros três. Os Beatles estavam muito animados naquele dia, eu não precisei persuadi-los a fazer nada, eles simplesmente faziam poses, simulavam cenas e me deixavam fotografar. E essa imagem de Lennon deitado não está entre as minhas preferidas.

Lennon comandou a sessão?

Praticamente. E essa foto, que considero muito incômoda, comprova sua ascensão no grupo. Lennon era dotado de uma personalidade muito forte, além da indignação - conseguia transformar tudo em uma forma de protesto. Ninguém o questionava. O clima era muito amigável, a ponto de, no final do dia, todos irmos para a casa de McCartney, onde tomamos chá próximo a um estranho domo que ele tinha no jardim.

O curioso é que, pouco mais de um ano depois, o grupo se separou. Teria sido aquele dia uma exceção na rotina dos Beatles?

Não acredito. Eles eram extremamente profissionais e sabiam que estar na capa da revista Life, importantíssima na época, era um privilégio. Não vejo dessa forma. Lennon era talentosíssimo, assim como McCartney. Juntos, criaram obras-primas que ainda perduram, influenciando multidões. Viraram uma grife em que não se identificavam direito os limites de cada um. Acredito que acabaram brigando até por conta disso, pois cada um ambicionava o seu próprio espaço. Foi o fim de uma era de ouro.

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