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Comanches

Uma curiosidade: quantos dos milhões de eleitores do Bolsonaro sabiam que estavam elegendo um governo militar quando votaram nele?

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

19 de setembro de 2019 | 03h00

Talvez a maioria não desconfiasse, talvez a maioria soubesse e não se importasse, talvez a maioria soubesse e concordasse. Se há uma coisa que ninguém pode dizer do Bolsonaro é que ele disfarça seus preconceitos, suas opiniões, sua grosseria – enfim, sua personalidade. Ele nunca escondeu que é um homem autoritário, que adora armas, admira monstros como Pinochet, não perde oportunidade de exaltar gente como o famigerado Ustra, defende a tortura, nega que tenha havido uma ditadura militar de 20 anos no Brasil e costuma recorrer ao insulto pessoal como contra-ataque, mesmo quando o inimigo é a primeira-dama da França ou vítimas da repressão brutal no Brasil e no Chile.

Para os que concordam com tudo que o Bolsonaro diz e faz e simboliza, a rudeza dele é autenticidade, a apologia da tortura é realismo e os 20 anos supostamente sem democracia no Brasil precisam ser vistos de outro ângulo, como 20 anos de eficiente supressão do comunismo, já que tudo na História é uma questão de ângulo – o que de certa forma absolve tudo na História. E há a inegável onda conservadora que inunda o País, alimentada pelo pavor da retribuição que espera a elite de uma das sociedades mais desiguais do mundo, quando a miséria que ela criou se tornar insuportável. Para essa elite, Bolsonaro representa a reação sem pruridos, com licença para dizer barbaridades. E ostentar armas, como fez seu filho ao visitar o pai no hospital (não sei se o filho era o embaixador, ainda me confundo com os guris). 

Se a pistola bem à vista na cintura nos permite pensar neste filme que nos assola como um western, pode-se dizer como disse o John Wayne, estranhando que os índios não atacavam: “Os comanches estão quietos...”. Quietos nada. Os militares brasileiros estão ativos, reforçando sua presença no governo. Exemplo: não existe na História do Brasil precedente para as escolas cívico-militares, de clara inspiração fascista, que os militares estão montando sem nenhuma oposição em todo o País. Os comanches, decididamente, não estão quietos.

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