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Com versão de 'Fausto', Sokurov fecha sua tetralogia dos homens políticos

Diretor usa a obra de Goethe para mostrar uma visão mórbida da busca pelo poder sem limites

LUIZ ZANIN ORICCHIO - O Estado de S.Paulo,

29 de junho de 2012 | 03h10

Quando Alexander Sokurov ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza do ano passado com Fausto, disse que tinha sido apoiado por Putin, embora o filme fosse uma crítica às figuras do poder, entre as quais se inclui o atual presidente da Rússia.

Fausto estreia hoje na cidade. Traz, como disse o seu diretor, uma visão mórbida da busca pelo poder sem limites. A origem da lenda perde-se nos fundões da Idade Média alemã. Fala-se de um certo J. Faust, que teria vivido no final do século 15. Médico e astrólogo, teria pactuado com o demônio em busca de sabedoria e prazeres terrenos. O dramaturgo Marlowe escreveu sobre o personagem em 1590, mas as obras que o imortalizaram na cultura ocidental são as de Goethe, no século 19. É sobre esse texto primordial que Sokurov vai criar, e de maneira bastante livre.

Dito isso, convém lembrar que também no cinema e na música o mito já firmara tradição. O Fausto de Murnau (1926) é uma das obras-primas incontestáveis do cinema mudo e do expressionismo alemão. O drama de Goethe também inspirou compositores como Berlioz e Gounod. Na literatura deu filhotes que são outras obras-primas, como Doutor Fausto, de Thomas Mann, e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. É uma história inscrita no inconsciente coletivo da nossa cultura. Quando dizemos que fulano ou beltrano vendeu a alma ao diabo para conseguir determinada coisa, é de Fausto que estamos falando. Nada menos. Olhem à sua volta e encontrarão Faustos, uns mais patéticos que outros, segundo suas possibilidades e vocação. É uma figura eterna.

Por isso também era lógico que Sokurov, um discípulo de Andrei Tarkovski, coroasse com o Fausto sua sequência de filmes dedicados às figuras do poder - Adolf Hitler em Moloch (1999), Lenin em Taurus (2000), Hirohito em O Sol (2005). Três personagens da História e, agora, um da ficção, que recobre a todos os outros porque deles é a figura emblemática. Não importa aqui lembrar as convicções políticas de Sokurov (ele é um conservador), mas ver como se tornava quase obrigatória a passagem pelo Fausto para completar sua reflexão sobre a busca do poder e a derrocada de todo aquele que se empenha em conquistá-lo de maneira absoluta.

É, portanto, um conceito, uma ideia, mais do que a literalidade do texto de Goethe que guia a mão de Sokurov (e de seu formidável fotógrafo Bruno Delbonnel, de Amélie Poulin e Harry Potter). Tratava-se de sentir o ambiente e a época em que a história se passa e transmiti-la de maneira quase física ao espectador. Por isso a abertura é quase insuportável, com a dissecção de um corpo humano. Fausto (interpretado por Johannes Zeiler) busca nas vísceras a sabedoria pela qual está disposto a tudo pagar. Não por acaso, nesta versão, a figura clássica de Mefistófeles se encarna em um usurário (Anton Adasinskiy).

Um diabo feio e em mau estado. Fedorento, como convém aos diabos, mas também coxo, de abdômen inchado, pênis infantiloide e às voltas com problemas estomacais e flatulências. Ele é todo a exacerbação de um ambiente opressivo pintado (o verbo não é casual, trata-se mesmo de pintura) por Sokurov e seu fotógrafo. Com tons dominantes de marrom, verde e azul, há o retrato desse mundo soturno quase sempre coberto por uma pátina de neblina. Esse desenho de tela é fruto do diálogo do cineasta com Bosch e Brueghel, em especial, mas também com Rembrandt, El Greco e Giotto.

Nesse universo em desencanto move-se a dupla Fausto/Mefistófeles, iluminado apenas por um ponto brilhante, a presença de Margarida (Isolda Dychauk), loira e pura. É uma das contradições de Fausto que o personagem principal tenha de se render ao mal absoluto para atingir o bem supremo. Mas é o que faz dele uma obra imortal da humanidade. No Fausto de Sokurov, situado na Idade Média, mas pensado já neste mundo sem grandeza ou transcendência, essa possibilidade de superação parece ainda mais improvável que no original. Em Murnau existe uma redenção, grandiosa e trágica, descrita com a palavra Liebe (Amor) em grandes caracteres sinfônicos na tela. Em 1926 ainda se podia dizer isso. Quem ousaria fazê-lo em pleno século 21, sem se sujeitar ao ridículo?

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