Com tosse e sem tosse em Davos

Prosa de Sábado

Sergio Augusto, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2011 | 00h00

Guilherme Tell, relógios, bancos, chocolates, Cruz Vermelha, yodel, vacas leiteiras, canivete, a Guarda do Vaticano. A Suíça não é só isso, mas não é muito mais do que isso que ela evoca à maioria das pessoas. Com um e outro acréscimo: o dadaísmo (surgiu num cabaré de Zurique), o cinema de Alain Tanner, o teatro de Friedrich Dürrenmatt, Jean Ziegler, Harry Lime, o Instituto Benjamenta frequentado por Jakob von Gunten (o protokafkiano diarista de Robert Walser) - referências de uma minoria em preocupante encolhimento.

O ex-sociólogo Ziegler foi quem mais estrepitosamente expôs as perversões da neutralidade suíça. E Harry Lime, quem com maior cinismo reduziu a quietude helvécia às suas indevidas proporções: "A Itália dos Bórgias patrocinou guerras, atos de terror, crimes e matanças, mas também Michelangelo, Leonardo da Vinci e a Renascença. E o que 500 anos de democracia e paz produziram na fraternal Suíça? O relógio cuco." Desde que esta frase de efeito saiu da boca de Orson Welles, intérprete de Lime, vilão do filme O Terceiro Homem, a reputação da Suíça nunca mais foi a mesma.

O último e mais vistoso acréscimo ao currículo suíço foi sem dúvida o Fórum Econômico que todos os anos acontece em Davos. Mas esta estação de esqui, no cantão dos Grisões, a cidade mais alta da Europa (1.560 m de altitude), não merece ser embalsamada na memória mundial como um polo de discussões econômicas, esportes invernais, e mais nada. Afinal de contas, Davos é o pano de fundo do romance A Montanha Mágica, de Thomas Mann. É nela que fica o Sanatório Internacional Berghof, onde Hans Castorp se trata de uma tuberculose, entre 1907 e 1914. Mais que um pano de fundo, Davos transfigura-se, nas 800 páginas do romance, em microcosmo da Europa da primeira década do século passado.

Por causa do seu clima privilegiado, Davos tornou-se uma espécie de Campos do Jordão dos Alpes suíços, sem floradas na serra, mas com uma clientela intelectual VIP desde o final do século 19. Robert Louis Stevenson arrematou lá A Ilha do Tesouro. O pintor panteísta Ernst Kirchner também tratou dos pulmões numa de suas clínicas, não sei se a mesma (Waldsanatorium) em que a mulher de Thomas Mann, Katia, se internara em 1912, com suspeita de tuberculose. Nove anos antes a mulher de Conan Doyle passara dois meses na cidade esconjurando uma tísica, do que se aproveitou o criador de Sherlock Holmes para esquiar e até bater um recorde britânico. Sem o menor pendor esportivo, Mann valeu-se de suas visitas ao Waldsanatorium para colher dados para uma ficção de modesto calibre que só retomaria depois da guerra, com renovada ambição literária e intelectual.

A Montanha Mágica, publicada em 1924, foi como um trailer para os badalados colóquios acadêmicos com que, a partir de 1928 e durante quatro anos, a prefeitura de Davos procurou equilibrar sua receita, afetada pela queda acentuada de pacientes nos sanatórios e esquiadores nos chalés, e atrair um novo tipo de turista, mais interessado em lazer espiritual. Boa parte das discussões sobre a crise geral na Europa e as relações tempo-espaço travadas entre Castorp, Settembrini e Naphta espelhou (ou melhor, antecipou) os debates filosóficos e científicos que Einstein, Heidegger, Ernst Cassirer e outras sumidades europeias realizariam naqueles colóquios.

"Nosso propósito é cuidar da higiene da mente para melhorar a saúde do corpo." Com essa imagem adequadamente clínica, Einstein abriu os trabalhos do primeiro encontro, discorrendo sobre a Teoria da Relatividade e brindando a plateia com uma exibição ao violino, acompanhado de um trio de cordas. A filosofia foi o tema do segundo encontro, no ano seguinte, as ciências sociais o do terceiro, e a crise da cultura (do Bildung europeu, basicamente), o do quarto e último da primeira série.

Nada superou o impacto e a repercussão do mano a mano filosófico entre Heidegger e Cassirer, em torno da pergunta "O que é ser um ser humano?" Presente àquele duelo de titãs teutônicos, o então estudante Emmanuel Lévinas teve a impressão de "estar assistindo à criação ou ao fim do mundo". Contrapondo duas escolas de pensamento antagônicas, o debate de 1929 foi uma espécie de alegoria dos conflitos vitais e filosóficos (razão & desrazão, humanismo & anti-humanismo, empirismo & racionalismo, infinito & finitude) da época. Ao fundo, as ruínas de uma guerra, a República de Weimar em colapso, o nazismo em ascensão, a perda de confiança nas desgastadas formas materiais da modernidade europeia, a Grande Depressão dobrando a esquina. Mesmo na UTI o velho continente dava mostras de uma invejável inquietação espiritual. Enquanto lá se discutia a Teoria dos Conjuntos e a Relatividade einsteiniana, na América ainda se questionava (e punia) a biologia evolucionista. Fazia apenas quatro anos que o Tennessee envergonhara o mundo com o Processo Macaco.

Peter E. Gordon, um historiador de Harvard especializado na moderna cultura europeia, reconstituiu com esmero os colóquios na montanha mágica de verdade num livro, Continental Divide: Heidegger, Cassirer, Davos (Harvard University Press, 426 págs., US$ 32 na Amazon), que é uma aula de história das ideias rinçada de alguns dos mais frequentes clichês envolvendo o "semitismo" de Cassirer e o tropismo nazista de Heidegger. Os dois titãs subiram ao ringue com outras motivações e perspectivas. E de outro modo não podia ter sido em 1929.

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