Com Suassuna, lições de escrita em longas tardes de conversa

Escritor e amigo Raimundo Carrero fala da vida de Ariano Suassuna, de suas obras e da amizade dos dois

Raimundo Carrero, Especial para o Estado de S. Paulo

23 de julho de 2014 | 18h29

Ainda podia ouvir os riffs do saxofone que tocava na banda de rock Os Tártaros, no Recife, quando conheci Ariano Suassuna em sua residência do bairro de Casa Forte no Recife, templo do Movimento Armorial que ele se preparava para lançar, em meio aos ruídos do Tropicalismo e da mansidão da Bossa Nova, anos depois. Foi um encontro marcado pelo telefone e modificaria inteiramente a vida do jovem que estava em busca do destino. Levava embaixo do braço uma curta novela de cem páginas com um título barulhento – Gigante Mundo em Quatro Paredes. Ouvi dele ali a frase que marcaria minha admiração por Ariano: “Vou ler e se não gostar, não significa que não presta, significa que eu não gostei”. Um toque de generosidade que foi um dos traços mais significativos do seu caráter. Teve, porém que ser sincero dias depois: “Li sua novela e acho que é muito imatura, mas insista, continue escrevendo que sua frase é muito forte e os personagens marcantes. Percebi logo que aí está um escritor”. Não poderia ser mais elegante, diante de um texto ruim, escrito por um jovem de 17 anos, sofrendo profunda influência da música estrangeira contemporânea.

Imediatamente, introduziu-me no universo de Dostoievski e Tolstoi, além de Cervantes, emprestando-me livros e discutindo cena por cena. Recebi também o Lazarillo de Thormes, novela espanhola de autor desconhecido. Nos nossos longos encontros dominicais, que começavam às nove horas e iam ate às 21 horas, refletíamos sobre os caminhos da literatura e da cultura brasileira, com destaque para a nordestina. Jamais defendeu a documentação e a cópia do folclore nordestino – que é a base do Movimento Regionalista – mas a realização estética, profundamente estética, a partir das fontes populares da cultura da região, que é, na verdade, o fundamento do Movimento Armorial. Esta diferença parece não ser observada pela crítica brasileira. Assim, o Movimento Armorial não e sociológico e antropológico, mas estético. E não visa apenas o Nordeste, mas toda a cultura brasileira. De forma que o samba e o chorinho também são manifestações armoriais, muito mais do que o xote e o baião. E o carnaval é, sem dúvida, a maior festa armorial do País.

Foram temas como estes que nós analisamos durante aqueles domingos e que significaram, mais do que tudo, a minha formação do artista quando jovem. Cursos, diplomas, nada significou mais para mim. Logo escrevi um conto, O Bordado, a Pantera Negra, que Ariano transformou imediatamente num folheto de cordel chamado O Romance do Bordado e da Pantera. Meses depois escrevi meu primeiro romance, A História de Bernarda Soledade, recentemente traduzida para o francês e o romeno. Ambas com o prefácio que Ariano escreveu para a primeira edição brasileira, publicada pela Editora Artenova, em 1975. Neste prefácio está muita clara a estética do Movimento Armorial, que pode também ser lida, e definitivamente entendida, em edição da Iluminuras.

RAIMUNDO CARRERO É ESCRITOR, AUTOR DE ‘A MINHA ALMA É IRMÃ DE DEUS’, ENTRE OUTROS

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