Com sua aventura, o ''Sr. Bilheteria'' pode irritar o Irã

O produtor Jerry Bruckheimer diz que Príncipe da Pérsia segue a sua fórmula de confiar em seus instintos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2010 | 00h00

Riscos na corte. Aventura pode ser acusada de cutucar o governo do Irã

 

 

 

Jerry Bruckheimer iniciou sua carreira em Detroit, há mais de 40 anos. Trabalhando com publicidade, ganhou fama quando uma paródia curta de Bonnie & Clyde, o cult de Arthur Penn (que se intitulou Uma Rajada de Balas no Brasil) chamou a atenção de Hollywood. Primeiro em dupla com Don Simpson e, após a morte do parceiro, sozinho, fez filmes que faturaram mais de US$ 15 bilhões. Ampliando seu império, ele produziu, no biênio 2005/6, dez séries de TV. Tudo isso lhe valeu a definição de Sr. Bilheteria, Mr. Box Office. Ele ri, mas se há uma coisa que aprendeu, ao longo desse tempo todo, é que não há fórmulas de sucesso. "Confio em meu instinto, e ele às vezes falha", admite.  

 

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https://politica.estadao.com.br/estadao/novo/img/icones/mais_azul.gif Assista a trechos de Príncipe da Pérsia

  

Bruckheimer está ousando mais uma vez. Estreia hoje nos cinemas brasileiros o blockbuster Príncipe da Pérsia - Areias do Tempo, que ele adaptou do videogame que Jordan Mechner criou em 1989. Filmes baseados em games não têm dado muito certo em Hollywood, mas Bruckheimer não faz segredo de que gostaria de transformar Príncipe da Pérsia numa franquia tão bem-sucedida quanto a de Piratas do Caribe, cujo quarto episódio está saindo do papel (com Johnny Depp e Penélope Cruz). Quando diz que confia no próprio instinto, ele está querendo dizer que produz os filmes que gosta de ver. "Minha única fórmula é essa. Mas também gosto de acreditar que o público gosta de ser levado a lugares que nunca viu e a experimentar emoções que desconhece."

Em Londres, no começo de maio, Bruckheimer se antecipava às críticas de que Príncipe da Pérsia poderia ser acusado de cutucar o governo do Irã, com o qual Washington, mesmo na administração de Barack Obama, não mantém as melhores relações. "Nonsense, o filme é sobre um governante sábio e seu irmão predador. Conheço lugares onde nem os governantes são sábios", ele diz. O Príncipe da Pérsia também se arrisca, embora baseado num game, a ser rotulado de aventura à moda antiga. Bruckheimer vai na contracorrente da indústria, que investe no 3-D. Ele fez o Príncipe no velho formato 2-D.

"O 3-D é bom para filmes feitos em estúdio, como o de (James) Cameron, Avatar. Desde o início, com Mike (o diretor Mike Newell), tomamos a decisão de que o Príncipe devia ser realista e que a fantasia do filme deveria ser aquela existente na imaginação de um garoto no sexto século do império persa. Filmamos no deserto, sob um calor infernal, e depois em altitudes tão elevadas que deixavam até nossos stunts sem fôlego." Por stunts, o produtor refere-se aos substitutos de cenas de ação. Os efeitos existem, e podem até ser computadorizados, mas na maioria das vezes Bruckheimer e Newell optaram por tecnologias mais tradicionais.

O filme terá versão em 3-D? "Não", garante o produtor, que acrescenta: "Basta ver o desastre visual de Fúria de Titãs e perceber que isso não funciona. O caso de Alice no País das Maravilhas é diferente. Tim (o diretor Tim Burton) já fez o filme prevendo a conversão." Quando criou o game, Jordan Mechner, também presente à junket de lançamento do filme, em Londres, conta que essa era uma mídia que engatinhava. "Os primeiros anos dos games foram muito semelhantes aos primeiros anos do cinema. Estávamos lançando os fundamentos de alguma coisa nova, com base em gêneros estabelecidos como a ficção científica, a maioria, ou as velhas histórias de "sword and sorcery" (espada e bruxaria). Segui o segundo caminho."

O filme é sobre menino das ruas que vira o príncipe da Pérsia e é acusado de matar o pai adotivo, para usurpar o trono. O usurpador é outro, mas Dastan, o príncipe, é caçado pelos irmãos e pelo tio ambicioso. Ele encontra a mocinha, Tamina, guardiã da adaga mágica que aciona as areias do tempo. O filme, no limite, é sobre o tempo.

O ator Jake Gyllenhaal é a aposta de Bruckheimer no papel-título. O produtor minimiza. "Jake não é aposta maior do que foi Johnny Depp em Piratas do Caribe. Há tempo estou de olho nele, querendo lhe oferecer algo diferente." O ator corresponde: "Sempre quis fazer um blockbuster, ser herói de ação. Conhecia o jogo, mas a experiência foi mais rica do que pensava. O personagem tem curva dramática. Tive de representar como nos filmes mais exigentes que fiz antes e aqui ainda havia toda a parte física. Alguma coisa, a seguradora e o estúdio não me deixaram fazer, mas, tanto quanto possível, dispensei os dublês. Senão, qual seria a graça?"

Fragilidade de herói

JAKE GYLLENHAAL

ATOR

"Um ícone como Dastan é divertido de interpretar, mas também encerra um desafio. Gosto de filmes em que o herói faz e acontece, mas sem deixar de ser humano.

Dastan não é super-homem."

 

 

 

 

 

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