Com Stravinski, Sinfônica Municipal mostra avanços

Maestro John Neschling resolveu alguns problemas estruturais (não todos)

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2013 | 02h16

Autoconfiança não é tudo, mas que ajuda, disso ninguém tem dúvida. Em pouco mais de seis meses de comando na Sinfônica do Teatro Municipal de São Paulo, o maestro John Neschling resolveu alguns problemas estruturais (não todos), mas, sobretudo, devolveu a autoconfiança a um grupo que parecia o combalido, esfacelado, sempre às voltas com fissuras internas. E os resultados já começam a aparecer.

Isso ficou evidente no concerto de sábado à noite. Ora, os músicos da orquestra são tão bons quanto os da Praça Júlio Prestes. Só precisavam mesmo deste empurrão de autoajuda. Na batuta, estava o apenas razoável maestro chileno Maximiano Valdéz. Mas como solista estava Cláudio Cruz, um violinista tão extraordinário que a gente lamenta ele estar dedicando a maior parte de seu talento à batuta. O terceiro vetor positivo foi o repertório, bem pensado.

A abertura de O Navio Fantasma é um show-off que sempre levanta plateias e cumpriu seu objetivo no sábado. A temperatura subiu no Concerto para Violino de Stravinski. A obra oferece obstáculos técnicos complicadíssimos ao solista e o deixa com frequência acompanhado só pelo fagote, flauta e contrabaixos em pizzicati. A escrita angulosa e a riqueza rítmica extraordinária provocam permanente sensação de instabilidade. O solista fica à beira do abismo do caos, assim como as madeiras. Fagote e flauta solistas, excelentes; cordas precisas. E Claudio Cruz absoluto nesta floresta minada de sons.

Foi o momento memorável do concerto, apesar da regência burocrática. Na segunda parte a burocracia felizmente não passou do pódio para as estantes. A segunda sinfonia de Sibelius é um manifesto nacionalista contra a opressão dos russos sobre a Finlândia. Tanto o tema do Allegretto inicial, explorado timbricamente até a exaustão, quanto o do finale, colam-se de tal maneira em nossos ouvidos que saímos cantarolando um e outro. É uma das razões que fizeram seu êxito imediato em 1902, na estreia, e até hoje. Ela comove, sobretudo quando a execução é de qualidade. A Sinfônica Municipal teve momentos entusiasmantes, como no vertiginoso vivacíssimo. Mas não só isso. O equilíbrio entre os naipes, a ótima performance das madeiras, o nível bom das cordas... tudo conjurou-se numa interpretação de bom nível. Claro, nem todos os problemas estão resolvidos. A essa altura, algumas semanas de convivência com um Frank Shipway com certeza transfigurariam a orquestra.

COMO SOLISTA, CLAUDIO CRUZ ESTEVE ABSOLUTO EM FLORESTA MINADA DE SONS

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